Mostrando postagens com marcador cotas raciais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cotas raciais. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 29 de abril de 2010

O que a esquerda brasileira não conta (2)


Recomendo a todos que assistam à entrevista veiculada no programa Entre Aspas, da Globo News, de 16/02/2010 com o tema "Novos estudos reformulam a História do Brasil". Trata-se de uma mesa com o historiador Marco Antônio Villa e o jornalista Leandro Narlochec, discutindo velhos mitos e teses da História do Brasil.

Não é uma revisão conspiracionista, mas uma discussão sobre o hiato entre a pesquisa historiográfica feita nas universidades e o ensino difundido nos livros didáticos. Investigando documentos outrora secretos ou questionando estudos sem apoio documental os pesquisadores produziram novas teses sobre a Guerra do Paraguai, a Coluna Prestes, a posse de escravos por Zumbi dos Palmares, a resistência à ditadura militar, a raiz popular-nacional do samba brasileiro e outros pontos polêmicos de nossa História.

A íntegra da entrevista pode ser vista no site do programa.

Veja também na série O que a Esquerda Brasileira não Conta
Texto (1) – Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil
Texto (3) – A verdade sangrenta sobre o Comunismo
Texto (4) – O Holocausto Comunista

Share/Bookmark

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Noracebr: Resposta de Demóstenes à carta do Gaspari


Texto publicado originalmente no blog Contra a Racialização do Brasil de 12/04/2010, com o título "Resposta do Senador Demóstenes Torres à carta psicografada do Élio Gaspari". – Walter Dos Santos
Caros: o jornalista Elio Gaspari, recentemente, publicou um artigo no qual pretendeu fazer-se passar por "Cazemiro, um nagô atrevido", escravo que chegou ao Rio de Janeiro em julho de 1821, a bordo da escuna Emília, junto com outros 354 africanos. Queria com isso contestar a suposta afirmação de que o Senador Demóstenes Torres defendeu que os "negros eram os responsáveis pela escravidão" . (Leia o inteiro teor do artigo aqui).

Hoje, na Folha de São Paulo, o Senador Demóstenes Torres responde ao Elio Gaspari, em artigo intitulado "De Washington@edu para Gaspari@jor". Confiram:


TENDÊNCIAS/DEBATES
De Washington@edu para Gaspari@jor
DEMÓSTENES TORRES

Um negro rico tem mais direito a cota que um branco pobre? Ou o Brasil quer institucionalizar em 2010 o racismo americano de 1910?

ILUSTRE jornalista Elio Gaspari, Quem lhe responde é Booker T. Washington, ex-escravo. Faço-o porque li que o senhor, uma estrela da comunicação, sustenta pela segunda vez em artigos que o senador Demóstenes Torres tentou explicar a escravidão atribuindo-a aos negros. A teoria negacionista não é dele, que nem sequer a advoga. Nem os alunos de Madame Natasha ou os colegas de Eremildo interpretariam assim os discursos, entrevistas e textos de Demóstenes. O combate do senador é pela educação, que começa na escola em tempo integral e permeia as demais fases do ensino, para que não se necessite de cotas, nem as raciais, que ele considera racistas, nem as sociais, que defende por beneficiarem os pobres de qualquer cor. Esse item, educação, nos aproxima. Vou lhe contar meu caso.

Passei da servidão a reitor de universidade não por


Share/Bookmark

quinta-feira, 18 de março de 2010

Dos conflitos e das cotas


Acho que devo principiar este post com um pedido de desculpas por qualquer mal entendido que possa ter causado. Quando destaquei um trecho do discurso do senador Demóstenes Torres sobre a miscigenação – “Nós temos uma história tão bonita de miscigenação… [Fala-se que] as negras foram estupradas no Brasil. [Fala-se que] a miscigenação deu-se no Brasil pelo estupro. [Fala-se que] foi algo forçado. Gilberto Freyre, que é hoje renegado, mostra que isso se deu de forma muito mais consensual” – não estava insinuando nem que a leitura de Fábio era tão canhestra quanto aquela, nem que algum dos dois compartilha dessa visão distorcida da história.

Me referia, isso sim, a um velho incômodo que se esconde sob as palavras do senador – e que explica sua interpretação da obra de Freyre: a incapacidade que a sociedade brasileira tem de assumir a idéia de conflito como uma categoria hermenêutica não só válida como também, o que é mais importante, positiva. Assim, quando destaquei o trecho e chamei a atenção de Fábio e Ricardo, estava saudosamente pensando numa daquelas tardes que passamos na Unicamp, na qual discutíamos, pra variar, as cotas para negros na Universidade. Ricardo, então, sob o silêncio – não sei se conivente ou reflexivo – de Fábio, apontou que uma das suas restrições àquela política dizia respeito ao seu medo de que ela criasse um conflito racial no país. E foi exatamente essa frase – não literal, obviamente, até mesmo porque quem conhece Ricardo sabe que ele não é tão prosaico – que me veio à mente quando li a matéria da Folha.

O conflito racial no país já existe: latentemente. Roberto Schwarz escreveu que para descobrir as falácias do liberalismo na Europa foi necessária uma mente tão arguta como a de Marx; no Brasil, bastava ser escravo. Do mesmo modo, viver a falácia da democracia racial nessa república paralela que é a das classes média e alta em que vivemos é uma coisa; querer torná-la uma realidade nacional para que continuemos gozando dos seus privilégios – e sem querer arcar com os seus custos sociais – é de uma violência que me parece sem tamanho. Batendo na mesma tecla: o conflito racial já existe no país – e exemplos não faltam –, o problema é que, com a política de cotas, ele ousou cruzar a fronteira que mantinha saneada a nossa republiqueta, ousou se insinuar em espaços que não lhe pertenciam, como as universidades. Isso é o que incomoda a tanta gente.

Se a política de cotas vai reduzir as desigualdades no país, eu realmente não sei. Mas ela, a meu ver, já tem um ponto bastante positivo: democratizou um desconforto que era muito convenientemente seletivo ao instaurar um conflito onde só havia a modorra de um assunto interdito e dado por encerrado: o da raça. Com todo o respeito, Fábio, defender as cotas sociais é uma tarefa fácil. Já é um lugar comum de qualquer discurso, mesmo entre as posições mais conservadoras, que é preciso diminuir as desigualdades sociais do país. Mais difícil tem sido meter a mão na lata de lixo da nossa história e revirar a sua imundice, principalmente no que se refere à escravidão e à ditadura, duas mazelas – cujos términos, não por acaso, são representados, ambos, como processos de transição conciliatórios que mascaram o quanto de violência repressora existiu para sua manutenção, assim como a resistência de escravos e de cidadãos – que permanecem dando as mesmas cartas marcadas da nossa sociabilidade hipócrita.

Na minha modesta e pouco abalizada opinião, as raças existem, sim. Elas existem num nível celular, que se manifesta fenotipicamente, determinando nossas diferenças. O problema é que teimamos em querer suprimir a diferença através da abstração cada vez menos operacionalizável de “ser humano”. É a reposição da falácia do amor sem fronteiras de Shrek e Fiona: aparentemente, há uma superação das diferenças, afinal a princesa do conto de fadas se apaixona pelo horrendo ogro; mas, para que esse amor possa se concretizar, é preciso que Um se transforme no Outro. Não importa se é o feio que vira bonito ou o bonito que vira feio: importa, isso sim, que as diferenças não podem conviver, por isso sua supressão. Do mesmo modo, a utilização da categoria “ser humano” tende, a meu ver, menos do que igualar os homens, a suprimir as diferenças – o que não é a mesma coisa, principalmente porque é com as diferenças que temos que conviver cotidianamente, não com a sua utópica abstração. E todos sabemos, por experiência própria, o quanto isso é difícil.

Última nota, que este post já vai maior do que eu pensava: não só é possível diferenciar a esquerda da direita no Brasil, como essa é uma tarefa que se faz cada vez mais urgente. E essa diferença, nas palavras de um brilhante crítico materialista,
"is, first and foremost, a product of temporality: of the weight and memories of the past, the open-ended conflicts of the present, the projects and hopes of the future."
(Franco Moretti, "The moment of truth",
in New Left Review. London, n. 159, sep.-oct., 1986, p. 47)

Share/Bookmark

quarta-feira, 17 de março de 2010

Sobre cotas e raças


Primeiramente agradeço ter sido convidado ao debate. Debate importante que (como bem sabe o Cerqueira) sempre acarreta indesejáveis efeitos colaterais (sempre a velha dificuldade humana à diferença...)... mas isso são outras reticências...

Bom, penso que o Cerqueira me convida às questões por conhecer certas críticas e preocupações que tenho às políticas das cotas, especificamente no caso do ingresso às universidades.

Sobre os textos enviados ilustro: Não! Não virei reaça como certos colegas políticos! Jamais! Aliás, meses atrás um de nossos príncipes herdeiros, o D. Bertrand, proferiu uma curiosa palestra cujo raciocínio pautava-se na mesma leitura canhestra de Gilbrto Freyre. (Parece que direitonas vêm usando nosso antigo amigo para o mal escancarado, cenas á lá Darth Veider mesmo).

Vejam: ter críticas às questões cotistas não implica em aceitar ou reiterar os sujos discursos de reacionária oposição às cotas. Não acho que a política da cota seja um mal desatado, nem o fim da democracia Ocidental (se é que a democracia conseguiu efetivamente se implementar e não seja, ela mesma, a grande utopia de nossa civilização). Reconheço a importância da questão: traz para o debate neuroses de nossa terra brasilis, mobiliza o sentido que damos ou demos ao nosso suposto Estado de Direito, questiona e levanta poerias dormentes.

Minha crítica se preocupa com questões mais sutís: quando elegemos como critério o termo "raça", estamos repondo o termo, constantemente. Termo este que o XIX nos legou e que nos aprisiona ad nauseam. Não afirmo, contudo, que tal preocupação deslegitime por completo a implantação das cotas, nem acho que esta minha preocupação sirva para maquiar o problema do racismo no Brasil: ao contrário, acho que as estratégias anti-racistas deveriam se preocupar um pouco mais com o uso desse termo para que o tiro não saia pela culatra.

Sei que o multiculturalismo deslocou o termo "raça" da biologia e o trouxe para o campo da cultura. Ok. Mas isso sei eu, o Renato, o Rodrigo, o Ricardo e mais uma dúzia pouca de seres acadêmico-parnasianos. Quando se faz uso do termo "raça" para uma coletividade, em nome do ressarcimento histórico, deixa-se mais que implícito a esta coletividade (por vezes mais iletrada, ou desatenta, do que gostaríamos) que existem "raças" diferentes de seres humanos. A permanência do conceito de raça reitera que existam diferenças "naturais", de "nascimento" entre os seres humanos. Como se existissem tipos de humanos diferentes.

Vejam: é óbvio que os humanos são diferentes (não sou tão rousseauista para pensar que não), mas isso não implica que possamos catalogá-los por "tipos", "naturezas" ou ainda "raças".

Quanto às cotas, não acho mesmo algo "o melhor", mas penso que pode ser uma (e não "a única") medida valiosa para a conquista da isonomia política. Particularmente, penso que se fossem aplicadas cotas sociais e não raciais, atingiríamos os mesmos objetivos sem a nefasta possibilidade de reiterarmos um conceito cientificamente caduco. O cientificismo do século XIX criou o conceito de raça, o nazismo deu o acabamento que o Ocidente sempre quis (mas não era tão descaradamente inescrupuloso para fazê-lo): mais um conceito à serviço da intolerância (e mascarado pela vontade de verdade de certa ciência).

Bem sabemos que, por conta do nosso racismo, a população de baixa renda no Brasil é de pele escura (esse é o método senso-comum de o brasileiro reconhecer a pertinência ou não à categoria de "negro(a)"). Se as cotas fossem sociais (baixa renda) nós estaríamos colocando nas universidades candidatos que foram marginalizados, ou por racismo ou por questões sociais e, de quebra, evitaríamos a reposição dessa balela científica oitocentista.

Por outro lado, mesmo as cotas sociais devem ser utilizadas com cuidados cirúrgicos, ou seja, com data para início e data para o fim. O Brasil está com essa mania de que padeiro, lixeiro e garçon tem que ter curso superior. O Brasil continua achando que faculdade é como título de nobreza ou de viabilidade social (do modo mesmo como os bacharéis do nosso século XIX). Como o brasileiro se recusa a valorizar os serviços de padeiro, lixeiro e garçon, ele impele todos os trabalhadores para as Universidades. Universidade serve para quem deseja ampliar seus estudos, tornar-se pesquisador, seguir carreira acadêmica e, principalmente, para quem gosta de estudar. E, como professor universitário, sei: não vem sendo o objetivo de alguns dos alunos que estão em sala de aula.

Eu sei, eu sei. Estou sendo utópico. No Brasil a universidade se tornou a via honesta de ascenção social (a desonesta é a carreira política....rs). Eu sei que o processo é inevitável, eu sei que não posso fazer nada para mudar essa visão pequeno burguesa e medíocre da universidade brasileira. Mas sou romântico mesmo.

A política de cotas (inclusive as cotas sociais, que considero válidas), deve sempre ter um prazo para terminar para que se evite a reposição dessa mentalidade brasileira sobre o papel da universidade: o uso ad infinitum da cota social reiteraria a concepção de que a função da academia é regular ou catalizar a igualdade social. E não é. A função da universidade é produzir conhecimento (e que o pesquisador possa e deva atuar na sociedade, inclusive para a vibilização da igualdade social, temos como certo.... Mas [eu] não estou certo de que ela deva ser tomada como campo de batalha para a luta social).

E, peço, leiam bem: eu disse "não estou certo" e isso quer dizer: não creio que devemos tomar a universidade somente sobre esse prisma: uma instituição que possibilita a ascenção social. Pensar assim não significa dizer que ela não venha sendo vivenciada desta maneira, não significa dizer que não devemos inclusive, temporariamente, usar esse sentido que a ela vem sendo dado, para buscarmos uma sociedade mais justa.... Isso significa crer que certas medidas devem ser tomadas com cautela.

E o que seria ter cautela? A cautela seria nunca nos esquecermos que as cotas (as "sociais" e não as "raciais" pelo que já expus) são um curativo provisório na sangria destada que se tornou a educação no Brasil. Sei que o governo Lula vem fazendo mais pela educação do que outros fazem/fizeram, como, por exemplo, o PSDB. Mas eu esperava mais do governo.

No que diz respeito aos ensinos básico e médio, poupo explicações (a educação pública está péssima, mas pode melhorar; as redes particulares com suas franquias são péssimas e não querem melhorar porque descobriram que bom negócio é vender logomarca e não processo pedagógico). No que diz respeito ao nível universitário, o MEC vem sendo vergonhoso: como é possível certos cursos obterem nota alta no ENAD, se a biblioteca é praticamente menor do que a que eu tenho em casa? (Contei hoje, meu escritório está com aproximadamente 650 obras na área de humanas).

Se olharmos no movimento geral que vem sendo feito, não veremos um governo preocupado com a qualidade da educação. Se fosse de qualidade, dava até para justificar a política cotista (social) por um tempo. Mas lembrem-se, senhores: quem entra nas públicas é minoria. Temos uma enchurrada de universidades, miraculosamente (ou mafiosamente?) autorizadas pelo MEC entupindo-se de alunos com cotas e pro-unis para fazer um serviçinho medíocre.

O que quer o MEC? Desenvolver a igualdade social? Ilustrar a população? Ou aumentar/maquiar as estatísticas educacionais brasileiras para fazer bonitos índices para inglês ver? Trabalhamos com taxas ou com processos pedagógicos e construção de cidadania? Será que o governo Lula está conseguindo driblar as políticas neoliberais para a educação que nosso passado de graúnas e de tucanos nos legou? Tristes trópicos não?

*

Por outro lado, desabafo, sinto-me pouco confortável, sempre que me exponho em tais debates: o fato de eu criticar certas estratégias da esquerda, não me faz discípulo da direita (Aliás, cada dia que passa vejo que não consigo conceituar com exatidão esquerda/direita no Brasil – e em nenhum outro lugar. Só consigo pensá-los a partir dos agenciamentos sociais que os definem, sempre estipulando para si convenções mais de sociabilidade do que efetivamente conceituais ou investigativas e metodológicas – Talvez eu deva fazer como o Renato, ler Bourdieu para entender melhor esse movimento).

Não é inadmissível pensarmos em cotas. Para mim, Fábio Casemiro, é inadmissível defender qualquer ponto de vista sem considerar suas deficiências, seus limites, seus efeitos colaterais. Não abomino os argumentos de Olavo de Carvalho, Diogo Mainardi, etc... porque à priori são de direita: eu abomino seus argumentos porque são medíocres e ridiculamente persecutórios.

O Demétrio Magnoli me parece interessante sim. Preciso ler o livro dele a sério
Uma Gota de Sangue (já tá aqui em casa). Tenho certo que alguns argumentos não me convencerão, o que não me impede de concordar com outros, como: "foi o racismo que inventou a idéia de raça e não a raça que criou o racismo" [citação de cabeça, confiram....].

Por outro lado, gosto da idéia da democracia como jogo. Gosto de me sentar à mesa com quem não concordo. Eu aprendo. É com o aprendizado que tenho casamento, com ele me fiz monogâmico. Gosto de pensar, e em termos de abetura intelectual sou uma prostituta (e da intolerância, recuso as cartas de amor).

Confesso, adorei a experiência que tínhamos no Jornal PortAberta. Às vezes, esquizofrênico, acho que aquele foi o menor e melhor jornal/revista do país. Reunia uma fauna de opiniões que se debatiam nas páginas. Talvez aquilo tenha sido o mais próximo que chegamos do anarquismo. E meu coração é anárquico. (Fico feliz em mobilizarmos publicamente, mais uma vez, nossas contradições: Caos à Política!)

Queria que a idéia de "raça" virasse fóssil para arqueólogo botar no museu. Sonho com isso. A política de cotas é uma resposta possível. Penso muito sobre ela. Mas, poeta, não consigo não ver que a imenda pode sair pior que o soneto.

Acho que cada dia venho me tornando mais transculturalista que multiculturalista. Mas preciso descobrir exatamente o que isso significa (e quais os efeitos colaterais disso).

Sou tão radical à liberdade
que craseio na ênfase.
Continuo de esquerda,
e com saudades de nossas conversas.

Abraços a todos!

Share/Bookmark

Demóstenes n'O Globo: "Escolha de Sofia"

O artigo abaixo foi originalmente publicado no jornal O Globo de 12/03/2010. Ele é uma resposta à matéria publicada na Folha de São Paulo, reproduzida neste blog. O quadro [Navio negreiro, de Johann Moritz Rugendas (1830)], os links em vermelho e os intertítulos presentes não fazem parte do texto original, tendo sido acrescentados pela equipe do Caos à Política. – Walter Dos Santos

por Demóstenes Torres*


Durante a audiência pública realizada no STF para discutir as cotas raciais tive a oportunidade de expor durante 40 minutos o meu entendimento sobre um assunto ao qual me dedico a estudar mais profundamente há três anos. Quem assistiu viu que defendi especialmente a adoção do tempo integral em todas as escolas públicas que ministrem ensino fundamental, para mim verdadeiro marco da transformação social no país. Mostrei que se tratava de uma escolha difícil entre propor uma ação afirmativa que socorreria todos os brasileiros em posição de inferioridade, independentemente da cor da pele, ou atender parcela minoritária, igualmente sofrida, classificada como afrodescendente. Verdadeira escolha de Sofia.

Muitos dos debatedores, inclusive do Movimento Negro, entenderam

Share/Bookmark

Folha: "DEM corresponsabiliza negros pela escravidão"

LAURA CAPRIGLIONE
LUCAS FERRAZ
da Folha de S.Paulo, em Brasília

Para uma discussão que sempre convoca emoções e discursos inflamados, como é a das cotas raciais ou reserva de vagas nas universidades públicas para negros, a audiência pública que se iniciou ontem (3) no Supremo Tribunal Federal transcorreu em calma na maior parte do tempo. Até que um óóóóóóó atravessou a sala. Quem falava, então, era o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), que se esforçava para demonstrar a corresponsabilidade de negros no sistema escravista vigente no Brasil durante quatro séculos.

Disse Demóstenes sobre o tráfico negreiro: "Todos nós sabemos que a África subsaariana forneceu escravos para o mundo antigo, para o mundo islâmico, para a Europa e para a América. Lamentavelmente. Não deveriam ter chegado aqui na condição de escravos. Mas chegaram. (...) Até o princípio do século 20, o escravo era o principal item de exportação da pauta econômica africana."

Sobre a miscigenação: "Nós temos uma história tão bonita de miscigenação... [Fala-se que] as negras foram estupradas no Brasil. [Fala-se que] a miscigenação deu-se no Brasil pelo estupro. [Fala-se que] foi algo forçado. Gilberto Freyre, que é hoje renegado, mostra que isso se deu de forma muito mais consensual."

As referências à história "tão bonita" da miscigenação brasileira, ao negro traficante de mão de obra negra, o democrata usou para argumentar contra as cotas raciais, já adotadas em 68 instituições de ensino superior em todo o país, estaduais e federais. Desde 2003, cerca de 52 mil alunos já se formaram tendo ingressado na faculdade como cotistas.

O partido de Demóstenes considera que as cotas raciais são inconstitucionais porque, ao reservar vagas para negros e afrodescendentes, contrariariam o princípio da igualdade dos candidatos no vestibular.

Na condição de relator de dois processos sobre o tema (também há um recurso extraordinário interposto por um candidato que se sentiu prejudicado pelo sistema de cotas adotado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul), o ministro Ricardo Lewandowski, do STF, decidiu convocar a audiência pública, que se estenderá até sexta-feira, com intervenções pró e anticotas.

A audiência pública é uma forma de as partes interessadas levarem seus pontos de vista ao STF. Segundo Lewandowski, o assunto será votado ainda neste ano. Se considerar que as cotas ferem preceito fundamental, acaba essa modalidade de ingresso no sistema universitário. Se considerar que são ok, a decisão sobre adotar ou não uma política de cotas continuará a ser dos conselhos universitários.

No primeiro dia, falou uma maioria de favoráveis às cotas, em um placar de 10 a 3. Falaram representantes de ministérios e de universidades favoráveis às cotas, e os advogados do DEM e do estudante gaúcho, além de Demóstenes.

Fonte: Folha de S. Paulo, 04/03/2010


Share/Bookmark

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails