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quarta-feira, 23 de junho de 2010

Governo do PT é o que mais censura (5)

Publicado no blog do Reinaldo Azevedo em 19/06/2010 com o título GOVERNO LULA CENSURA PORTAL NA INTERNET QUE TRAZIAM DADOS DO PAÍS REAL, NÃO DAQUELE VENDIDO PELA PROPAGANDA". – Walter Dos Santos
O decálogo de problemas que segue abaixo poderia se um roteiro utilizado pelos candidatos de oposição José Serra (PSDB) ou Marina Silva (PV). Mas não é — ou NÃO ERA. Ribamar Oliveira, do jornal Valor Econômico, colheu essas avaliações num portal oficial, do próprio governo. Antes que prossiga, uma síntese:

1 - a política de reforma agrária do governo Lula não alterou a estrutura fundiária do país nem assegurou aos assentamentos assistência técnica, qualificação, infra-estrutura, crédito e educação;
2 - a qualidade dos assentamentos é baixa;
3 - os programas oficiais não elevam a renda dos agricultores, que ficam dependendo do Bolsa Família;
4 - imposições da legislação trabalhista no campo acabam provocando fluxo migratório para as cidades;
5 - a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) ainda não definiu uma política de curto ou médio prazo para a formação de um estoque estratégico e regulador de produtos agrícolas.
6 - em futuro próximo, a produção de biodiesel não será economicamente viável;
7 - a reconstrução de uma indústria nacional de defesa voltada para o mercado interno, prevista na Estratégia Nacional de Defesa, não se justifica;
8 - a educação brasileira avançou muito pouco e apresenta os mesmos índices de 2003 em várias áreas:
9 - é baixa a qualidade da educação em todos os níveis; os que concluem os cursos não têm o domínio dos conteúdos, e as comparações com indicadores internacionais mostram deficiências graves no Brasil;
10 - O analfabetismo funcional, entre jovens e adultos, está em 21% na PNAD de 2008, uma redução pequena com relação à PNAD de 2003, que era de 24,8%. O número absoluto de analfabetos reduziu-se, no mesmo período, de 14,8 para 14,2 milhões, o que aponta a manutenção do problema.

Essas informações todas estavam no “Portal do Planejamento”, criado pela Secretaria de Planejamento e Investimento Estratégico (SPI), tarefa que durou um ano e meio. E QUE SUMIU EM UM DIA. Bastaram uma ordem e um clique. É isto mesmo: o ministro Paulo Bernardo (Planejamento) mandou tirar o site do ar. Eram cerca de 3 mil páginas abordando 52 temas.

Bernardo justificou assim a censura em entrevista à rádio CBN:
“Vários ministros me ligaram para dizer: ‘Olha, estão fazendo críticas às políticas desenvolvidas pelo meu ministério, mas nós não fomos chamados a discutir’. Ficamos numa posição um pouco delicada de explicar que aquilo não era posição fechada do Planejamento; são técnicos fazendo debate.”

Entendo… o ministro convocou uma reunião para segunda-feira com os responsáveis pelo Portal:
“Me parece que um site para discutir políticas de governo deve ter um nível de acesso para quem é gestor, outro para quem é jornalista e outro para o público em geral”.
Deixe-me adivinhar como seria essa gradação e o produto oferecido a cada um:
- ao gestor, a verdade;
- ao jornalista, uma quase verdade;
- ao público, o de sempre…

Vamos compreender
É evidente que nenhum governo gosta de ser criticado pelo… próprio governo. Não me atrevo a dizer que este ou aquele não agiriam assim. Aliás, acho curioso que um portal dessa importância vá ao ar sem o conhecimento do chefe da pasta. A questão aí não é matéria de gosto, não.

O que o portal revela é que existem dois Brasis: aquele real, conhecido pelos técnicos do governo, que veio a público por um breve instante, e o outro, o de propaganda, este de novas auroras permanentemente anunciadas pelo governo, ancorado numa verba bilionária de propaganda.

Como se nota, Paulo Bernardo acha que é preciso trabalhar com “níveis” de acesso, como se aqueles informações não fossem dados sobre políticas públicas, mas matéria de “segurança nacional”. Informações relevantes, pois, para orientar tais políticas passariam a ser privilégio de uma espécie de casta.

Nunca antes na história destepaiz!!!
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quinta-feira, 17 de junho de 2010

Filosofia Cirúrgica: Auto-ajuda literalmente

Publicado no blog Filosofia Cirúrgica, por Márcio Leopoldo Maciel em 13/06/2010. – Walter Dos Santos
Uma grande editora brasileira acaba de anunciar a publicação de cinco grandes obras de políticos nacionalmente conhecidos. Os primeiros dois da lista são:

Mestrado e Doutorado em 1 click – Para ler e fazer no ônibus (Autor: Dilma Rousseff)

Uma obra essencial para incrementar sua formação. Nos moldes do grande sucesso do governo federal, o PAC, o livro apresenta soluções engenhosas para que você acelere seu crescimento profissional. De autoria da ministra do presidente Lula, Mestrado e Doutorado em 1 click apresenta o passo-a-passo de como dar um up em seu Lattes. A obra traz o depoimento pessoal da ministra.

Inimigos, meus melhores amigos (Autor: Lula)

Os bastidores do poder. Nesta vigorosa obra ditada o presidente da República conta como uma relação de inimizade se transformou em afeto e companherismo. Uma metáfora de futebol é o pontapé inicial para uma história de suspense. Sabia ou não sabia? Corrupção, lavagem de dinheiro, compra de votos, dinheiro não contabilizado… Por fim, a glória redentora do esporte prova que a amizade é o nosso maior patrimônio. Lula conta como, em um ou dois dribles, superou as divergências e pode celebrar a união com vultos da política nacional e internacional: ACM, Sarney, Collor, Malluf, Renan Calheiros, Ahmadinejad, Fidel e Raul Castro. Imperdível.
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sexta-feira, 11 de junho de 2010

Universidade e mercado: boa poesia, prosa ruim

Do ESQUERDA.NET: “A Universidade de Middlesex, em Inglaterra, decidiu fechar o curso de Filosofia e encontrou forte oposição de alunos, pessoal e outros cidadãos. Tariq Ali juntou-se ao protesto a 15 de Maio, com esta intervenção junto ao edifício ocupado.”

Poema de Brecht, citado por Tariq Ali como inspiração:

“Há os irreflectidos que nunca duvidam.
A sua digestão é esplêndida, o seu juízo infalível.
Não acreditam nos factos, acreditam só em si mesmos.
A paciência consigo mesmos é ilimitada. Os argumentos,
ouvem-nos com os ouvidos dum espia policial.
Os irreflectidos, que nunca duvidam,
encontram-se com os reflectidos que nunca actuam.
Duvidam não para chegar a uma decisão, mas
para eludir uma decisão. Com rostos ansiosos
advertem tripulações de navios afundando-se que a água é perigosa.
Debaixo do machado do assassino,
perguntam-se se ele não é humano também.
Resmungando qualquer coisa
sobre a situação não estar ainda clara, vão para a cama.
Portanto, se elogiais a dúvida,
não elogieis a dúvida que é uma forma de desespero.
De que serve a capacidade de duvidar
a um homem que não consegue decidir-se?
O que se contente com bem poucas razões
poderá actuar erradamente
mas o que precise de demasiadas
permanecerá passivo em tempos de perigo.”

Enquanto isso, Rodas, reitor da USP, defende hoje na Folha o investimento privado nas universidades públicas brasileiras. Comentário secundário (ou nem tanto): pra um dito bambambam, o cara escreve mal, viu? Ele podia ao menos ter delegado a tarefa a um assessor de prosa melhorzinha. Isso já dificulta o início de qualquer debate, tirando a ideia vir de quem vem.


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domingo, 6 de junho de 2010

O que a esquerda brasileira não conta (4)

Atenção: se você é uma pessoa sensível a imagens fortes, não assista ao vídeo abaixo! Ele mostra fotos das torturas, empalamentos, fuzilamentos, campos de extermínio, dentre outros crimes cometidos sob a ideologia marxista no Leste Europeu, Espanha e China contra dissidentes e civis. Até mesmo crianças foram vitimadas em nome da sociedade sem classes proposta por Marx.
Youtube – O Holocausto Comunista


Veja também na série O que a Esquerda Brasileira não Conta
Texto (1) – Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil
Texto (2) – Novos estudos reformulam a História do Brasil
Texto (3) – A verdade sangrenta sobre o Comunismo

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quarta-feira, 5 de maio de 2010

O que a esquerda brasileira não conta (3)

Youtube – A verdade sangrenta sobre o Comunismo*


*Se preferir, assista ao vídeo original, sem legenda em português.


Veja também na série O que a Esquerda Brasileira não Conta


Texto (1) – Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil
Texto (2) – Novos estudos reformulam a História do Brasil
Texto (4) – O Holocausto Comunista

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quinta-feira, 29 de abril de 2010

O que a esquerda brasileira não conta (2)


Recomendo a todos que assistam à entrevista veiculada no programa Entre Aspas, da Globo News, de 16/02/2010 com o tema "Novos estudos reformulam a História do Brasil". Trata-se de uma mesa com o historiador Marco Antônio Villa e o jornalista Leandro Narlochec, discutindo velhos mitos e teses da História do Brasil.

Não é uma revisão conspiracionista, mas uma discussão sobre o hiato entre a pesquisa historiográfica feita nas universidades e o ensino difundido nos livros didáticos. Investigando documentos outrora secretos ou questionando estudos sem apoio documental os pesquisadores produziram novas teses sobre a Guerra do Paraguai, a Coluna Prestes, a posse de escravos por Zumbi dos Palmares, a resistência à ditadura militar, a raiz popular-nacional do samba brasileiro e outros pontos polêmicos de nossa História.

A íntegra da entrevista pode ser vista no site do programa.

Veja também na série O que a Esquerda Brasileira não Conta
Texto (1) – Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil
Texto (3) – A verdade sangrenta sobre o Comunismo
Texto (4) – O Holocausto Comunista

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O que a esquerda brasileira não conta (1)

Publicado originalmente no Mídia sem Máscara em 22/12/2009 por Leandro Narloch, com o título Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil. - Walter Dos Santos
Os intelectuais de esquerda que escrevem a história brasileira têm mais um livro para se incomodar: o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, do jornalista Leandro Narloch.

Lancei recentemente pela editora Leya o livro Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, uma reunião informações esquecidas e episódios irritantes e desagradáveis a quem se considera vítimas de "grandes potências", "exploradores" e "imperialistas". Deixo para os leitores do MSM alguns exemplos.

Zumbi tinha escravos


Nos anos 70, os historiadores marxistas projetaram no Quilombo de Palmares tudo o que imaginavam de sagrado para uma sociedade comunista: igualdade, relações de trabalho pacíficas e comida para todos. Sabe-se hoje que o quilombo do século 17 estava mais para um reino africano daquela época que para uma sociedade de moldes que surgiram mais de um século depois. Zumbi provavelmente descendia de imbangalas, os "senhores da guerra" da África Centro-Ocidental. Guerreiros temidos, eles habitavam vilarejos fortificados, de onde partiam para saques e sequestros dos camponeses de regiões próximas. Durante o ataque a comunidades vizinhas, recrutavam garotos, que depois transformariam em guerreiros, e adultos para trocar por ferramentas e armas. Esse modo de vida é bem parecido ao descrito por quem conheceu o Quilombo dos Palmares. "Quando alguns negros fugiam, mandava-lhes crioulos no encalço e uma vez pegados, eram mortos, de sorte que entre eles reinava o temor", afirma o capitão holandês João Blaer.

Décio Freitas inventou dados sobre Zumbi

Os historiadores marxistas que engrandeceram Zumbi tinham um problema: não há sequer um documento dando detalhes da personalidade ou da biografia do líder negro. Para resolver esse obstáculo, Décio Freitas mentiu sem culpa. No livro Palmares: A Guerra dos Escravos, Décio afirma ter encontrado cartas mostrando que o herói cresceu num convento de Alagoas, onde recebeu o nome de Francisco e aprendeu a falar latim e português. Aos 15 anos, atendendo ao chamado do seu povo, teria partido para o quilombo. As cartas sobre a infância de Zumbi teriam sido enviadas pelo padre Antônio Melo, da vila alagoana de Porto Calvo, para um padre de Portugal, onde Décio as teria encontrado. Ele nunca mostrou as mensagens para os historiadores que insistiram em ver o material. A mesma suspeita recai sobre outro livro seu, O Maior Crime da Terra. O historiador gaúcho Claudio Pereira Elmir procurou por cinco anos algum vestígio dos registros policiais que Décio cita. Não encontrou nenhum.

Quem mais matou índios foram os índios

Nas bandeiras ao interior do Brasil, geralmente apontadas como a maior causa de morte da população indígena depois das epidemias, havia no mínimo duas vezes mais índios - normalmente dez vezes mais. Sobre a mais mortífera delas, a que o bandeirante Raposo Tavares empreendeu até as aldeias jesuíticas de Guaíra, os relatos apontam para uma bandeira formada por 900 paulistas e 2 mil índios tupis. "No entanto, nestas versões, o total de paulistas parece exagerado, uma vez que é possível identificar apenas 119 participantes em outras fontes", escreveu o historiador John Manuel Monteiro no livro Negros da Terra. Cogita-se até que o modelo militar das bandeiras seja resultado mais da influência indígena que europeia. "É difícil evitar a impressão, por exemplo, de que as bandeiras representavam uma predileção tupi por aventuras militares", afirma o historiador Warren Dean.

Os portugueses ensinaram os índios a preservar a floresta

Apesar de muitos líderes indígenas de hoje afirmarem que o "homem branco" destruiu a floresta enquanto eles tentavam protegê-la, esse discurso politicamente correto não nasceu com eles. Nasceu com os europeus logo nas primeiras décadas após a conquista. Os portugueses criaram leis ambientais para o território brasileiro já no século 16. As ordenações do rei Manuel I (1469-1521) proibiam o corte de árvores frutíferas em Portugal e em todas as colônias. No Brasil, essa lei protegeu centenas de espécies nativas. Em 1605, o Regimento do Pau-Brasil estabeleceu punições para os madeireiros que derrubassem mais árvores do que o previsto na licença. Conforme a quantidade de madeira cortada ilegalmente, o explorador poderia ser condenado à pena de morte.

João Goulart favorecia empreiteiras

A informação vem do próprio Samuel Wainer, no livro Minha Razão de Viver. De acordo com o jornalista, então diretor do Última Hora e um dos principais aliados do presidente, o esquema da época era aquele famoso tipo de corrupção que hoje motiva escândalos. "Quando se anunciava alguma obra pública, o que valia não era a concorrência - todas as concorrências vinham com cartas marcadas, funcionavam como mera fachada", escreveu Wainer. O que tinha valor era a combinação feita entre homens do governo e das empresas por trás das cortinas. "Naturalmente, as empresas beneficiadas retribuíam com generosas doações, sempre clandestinas, à boa vontade do governo."

Os guerrilheiros comunistas não lutavam por liberdade

De dezoito estatutos e documentos escritos por organizações de luta armada nos anos 1960 e 1970, catorze descrevem o objetivo de criar um sistema de partido único e erguer uma ditadura similar aos regimes comunistas que existiam na China e em Cuba. A Ação Popular, por exemplo, defendia com todas as letras "substituir a ditadura da burguesia pela ditadura do proletariado".


Veja também na série O que a Esquerda Brasileira não Conta
Texto (2) – Novos estudos reformulam a História do Brasil
Texto (3) – A verdade sangrenta sobre o Comunismo
Texto (4) – O Holocausto Comunista

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sábado, 24 de abril de 2010

Da Lama ao Kaos

Impossível não responder aos depoimentos deixados por Ricardo, Rodrigo e Fernanda, no meu texto "A Pedagogia Pilatus".

Rodrigo, fique feliz: também tenho que escrever um texto sobre Historiografia (da Grécia ao Iluminismo) para ensino da História em uma universidade estadual. Também estou sem tempo. Divido minha miséria com a tua, que bom! Não temos tempo e ainda assim escrevemos: é pela margem que se devora o rio. (Estou aguardando um longo texto seu! Se vira!)

Ricardo: teu depoimento é belíssimo. Tua escrita é ótima: que prazer tenho no mundo quando encontro pessoas que elaboram o mundo. A pedagogia é mesmo um campo de batalha, um trabalho de sísifo, uma guerra em que sempre se ganha e sempre se perde: um labirinto de Cnossos sem fio de Ariadne. Tua bravura muito, muito me lisonjeia.

Preciso pontuar questões que deixei um pouco no ar: não se trata de exigir alunos ideais e instituições ideais. "Sejamos realistas, desejemos o impossível", contudo, há que se complementar o clichê com um pouco do Hagakure samurai: "aceitar a vida tal qual ela se apresenta". E, tu sabes bem, não se trata de passividade, mas do anseio sincero de querermos mesmo construir uma educação livre e, por isso, começamos pela consciência efetiva sobre esse imenso panóptico histérico que se tornou o mercado da educação no Brasil. É de dentro que se transforma o real; a teimosia é a mãe de todas as virtudes. Assim, conheço a contingência dos alunos. Também trabalhei, dando aulas como professor eventual na escola pública quando fazia minha graduação em História. Sei que a carga de leitura sempre fica aquém do que desejamos: a dos alunos porque eles têm que trabalhar para se manter e, justiça seja feita, a dos professores também, porque temos que ter três ou quatro empregos para podermos comprar nossos livros, pagar nosso aluguel, etc. Tenho consciência das nossas contingências (de alunos e de professores), o que me assusta é, muitas vezes, a alienação do aluno frente ao seu processo pedagógico. O que me assusta não é uma suposta maldade ou má fé do aluno: o que me deixa transtornado é a suposição, por parte do estudante, de que o processo de aprendizado pode ser indolor, pode ser confortável ou confortante, pode ser tranquilamente saboroso. Eu me pergunto: "O que os ensinos fundamental e médio fizeram com esses meninos e meninas, que eles começaram a acreditar que existe conquista sem sofrimento?" Ou ainda: "De onde eles tiraram a idéia que minhas explicações, minhas aulas, podem substituir um processo de aprendizado, de reflexão e de leitura que só eles próprios podem percorrer?"

Essas perguntas me assustam porque revelam certa idiossincrasia muito perversa de nossa educação: o diretivismo do professor em sala de aula, o mito do Showman-teacher dos cursinhos, a lenda do professor palmatória (bate, mas educa) de nosso passado de senzalas à kubitscheks, ainda teimosamente persiste! Ainda se confunde seriedade com sisudez, ainda se confunde ensino com aprendizagem, ainda se acredita no professor-divindade, como um deus Moloch capaz de dar a vida e distribuir a morte. Acredita-se que cabe ao professor a responsabilidade única, o monopólio pelo aprendizado. Desde o ensino fundamental, professores e professoras reclamam da inabilidade dos alunos para com o estudo, mas eu pergunto: "Quando os professores fizeram da sala de aula um lugar de estudo, de reflexão?" Eu sempre escuto aquele papo furado: "Meu professor de cursinho é que era ótimo.... Ele falava e a gente entendia tudo". Pois é: para nossa sociedade, entender e apender é a mesma coisa. Eu sinto estes problemas quando estou em sala de aula na Universidade: meus alunos têm medo de perguntar! Meus alunos têm medo da dúvida! Meus alunos desconfiam de si mesmos e acreditam que aprender é tentar repetir, liturgicamente, o que eu disse em sala. O que me assusta não é a dificuldade do estudo no modo de produção capitalista (essa eu conheço bem), o que me assusta é o que nossa sociedade fez com a educação que matou toda a capacidade criativa o aluno, toda a sua liberdade (e responsabilidade) para com o saber. Tranformou pessoas em corpos dóceis, futuros intelectuais em pussycats, bruxos em broxas, etc.

Não se trata de defender que o aluno deva aprender sozinho e que o profesor não tenha responsabilidade no processo (isso seria ridículo). O que me assusta é que o Brasil ainda não acordou para um fato, para mim, óbvio: a sala de aula é um lugar de poder, e as dificuldades pedagógicas que encontro devem-se ao fato de o aluno desejar o conhecimento pronto, mastigado, porque desejam um ditador. A aula de cursinho se tornou paradigma de ensino no Brasil: veja que temos apostilas até para ensino fundamental 1! Aula de apostila é autoritária. Professor de cursinho é ditador, por que dita. E todos se acostumaram ao conhecimento como leis a serem ditadas e não conceitos a serem refletidos e compreendidos no/pelo grupo em sala de aula.

É curioso: ou o Brasil não se tocou que educação é o mais pleno exercício político de cidadania (muito antes do "vota Brasil") ou se tocou sim, e este é o comportamento político que o Brasil deseja: a docilização de mentes e de corpos.

Meu trabalho em sala de aula nas Universidades vem sendo de dois tipos: 1. Ensinar, propor, refletir sobre os conteúdos programáticos que apresento. 2. Deseducá-los frente às posturas pedagógicas que tiveram que engolir: devem tomar a aula para si, devem buscar a leitura e o conhecimento, devem fazer perguntas e refletir sobre nossas propostas, devem ouvir seus colegas e pensar com eles. Quanto a esta segunda parte é curioso: eles sempre esperam lousa, devoram cadernos, amedrontam-se de suas perguntas, desrespeitam as dúvidas dos colegas (inclusive porque eles mesmos às têm!)

Fernanda: você prova o contrário de tudo que acabei de falar. Você e muitos de meus alunos mostram que o aluno deve seguir o mestre para traí-lo, para superá-lo, e que o professor é um dos protagonistas do processo pedagógico (e não um ator em seu monólogo). E, veja, não se trata de classificar em "aluno bom ou aluno ruim", não penso por essa (i)lógica. Almejo diagnosticar quanto um modelo de educação castrou intelectualmente meus alunos. O que eu quero fazer com meus estudantes seria denominado pelas correntes tradicionais e tecnicistas de "deseducação" ou ainda "criação de maus alunos". Não pretendo postular a insolência, (isso não combina com o Budô). Muito pelo contrário: almejo cultivar a alegria, a irreverência e a liberdade intelectual.

Quando citei a frase de Adorno: "o intelectual não arruma cama" e isso pareceu aristocrático, vale ressaltar que, ao menos da maneira que eu vejo, não se trata de supor um intelectual tão bem servido de renda a ponto de poder contratar serviçais para os afazeres domésticos... Significa que o intelectual sacrifica a casa, a cama, a pia repleta de louça, e corre para os textos, para a escrita. Penso na educação como um mecanismo aristocrático de reflexão, o que não quer dizer que as pessoas devam ser aristocratas, mas devem sim, posicionar-se frente ao mundo de modo nobre, requintado, sutil e – por que não?– irônico.

Se prego essa marcialidade samurai que o Rica e a Fernanda aqui me denunciam (e prego mesmo!) não podemos nos esquecer: os samurais eram aristocratas.

Eis o desafio da educação: ser democrática e aristocrata, ser acessível sem ser popularesca, ser profunda sem alienar-se das contingências sociais e políticas. Baudelaire, em meados do XIX, já comentava sobre o paradoxo da condição aristocrática do poeta frente à velocidade do mundo burguês: se nossas auréolas chafurdarem na lama, todos poderão ser poetas?

Penso que não. Ser poeta no mundo contemporâneo (e estendo a reflexão à criatividade necessária ao estudioso) é ter a consciência de que as auréolas sempre chafurdam na lama... os tolos correm para surrupiá-las e, distraídos, saem enlameados. É o poeta que as atira à lama, só para se rir da tolice prosaica. Tira mais uma do bolso, coelho da cartola, senta-se num café, e, de um Haikai, contempla a Samsara.

Talvez estejamos no caminho certo. Rimos aristocraticamente de nossas contigências e desafiamos a mediocridade política neste blog. Eu precisava dos textos de vocês para reconhecer o caminho. Grande parte da vida a gente fica procurando o caminho. Um dia, recebidos os golpes certeiros, descobrimos que já o havíamos escolhido: só nos restava, vivendo, compreendermos nossas escolhas.

Domo Arigatô Gosaimashita.


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sexta-feira, 23 de abril de 2010

Entenda a greve dos professores em SP (4)

Matéria publicada na Folha Online de 22/04/2010, com o título: "Greve de professores foi campanha anti-Serra, diz procurador-geral". – Walter Dos Santos
por SILVIO NAVARRO, do Painel

Parecer da Procuradoria-Geral Eleitoral enviado hoje ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) referenda as denúncias feitas por PSDB e DEM de que a greve organizada pelo sindicato dos professores da rede estadual de São Paulo, em março, teve caráter de "propaganda eleitoral antecipada negativa" contra o pré-candidato tucano à Presidência, José Serra.

"Ao promoverem e financiarem as aludidas manifestações, realizaram uma organizada campanha eleitoral antecipada negativa contra o pré-candidato à Presidência", diz o documento, que leva a assinatura do procurador-geral da República, Roberto Gurgel.

O texto recomenda ao tribunal a aplicação de multa "no valor máximo" pela "gravidade da conduta" da Apeoesp e sua dirigente, Maria Izabel Azevedo Noronha.

O eixo do parecer é que os discursos e faixas utilizados no protesto não fizeram referência à gestão da administração estadual, e sim "à suposta inaptidão de Serra em ocupar o cargo de presidente". Diz ainda que a categoria (professores) é "extremamente influente" aos eleitores.

A procuradoria também rebate a defesa do sindicato, segundo quem o tucano ainda não era oficialmente candidato à época das manifestações --a candidatura de Serra foi lançada no último dia 10. "Já era veiculado em toda a mídia nacional que José Serra era candidato à Presidência pelo PSDB."
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quarta-feira, 14 de abril de 2010

Noracebr: Resposta de Demóstenes à carta do Gaspari


Texto publicado originalmente no blog Contra a Racialização do Brasil de 12/04/2010, com o título "Resposta do Senador Demóstenes Torres à carta psicografada do Élio Gaspari". – Walter Dos Santos
Caros: o jornalista Elio Gaspari, recentemente, publicou um artigo no qual pretendeu fazer-se passar por "Cazemiro, um nagô atrevido", escravo que chegou ao Rio de Janeiro em julho de 1821, a bordo da escuna Emília, junto com outros 354 africanos. Queria com isso contestar a suposta afirmação de que o Senador Demóstenes Torres defendeu que os "negros eram os responsáveis pela escravidão" . (Leia o inteiro teor do artigo aqui).

Hoje, na Folha de São Paulo, o Senador Demóstenes Torres responde ao Elio Gaspari, em artigo intitulado "De Washington@edu para Gaspari@jor". Confiram:


TENDÊNCIAS/DEBATES
De Washington@edu para Gaspari@jor
DEMÓSTENES TORRES

Um negro rico tem mais direito a cota que um branco pobre? Ou o Brasil quer institucionalizar em 2010 o racismo americano de 1910?

ILUSTRE jornalista Elio Gaspari, Quem lhe responde é Booker T. Washington, ex-escravo. Faço-o porque li que o senhor, uma estrela da comunicação, sustenta pela segunda vez em artigos que o senador Demóstenes Torres tentou explicar a escravidão atribuindo-a aos negros. A teoria negacionista não é dele, que nem sequer a advoga. Nem os alunos de Madame Natasha ou os colegas de Eremildo interpretariam assim os discursos, entrevistas e textos de Demóstenes. O combate do senador é pela educação, que começa na escola em tempo integral e permeia as demais fases do ensino, para que não se necessite de cotas, nem as raciais, que ele considera racistas, nem as sociais, que defende por beneficiarem os pobres de qualquer cor. Esse item, educação, nos aproxima. Vou lhe contar meu caso.

Passei da servidão a reitor de universidade não por


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quinta-feira, 8 de abril de 2010

Estadão: Sem consenso, professores de SP decidem acabar com greve

Notícia publicada no site do Estadão de 8/04/2010. – Walter Dos Santos
Grupo de professores atacou ovo na presidente da Apeoesp
por Luciana Alvarez - O Estado de S. Paulo


Professores presentes na manifestação que ocorre na tarde desta quinta-feira na Avenida Paulista, no centro de São Paulo, acabam de decidir pelo fim da greve da categoria, que completa uhoje um mês de duração. A decisão, anunciada por representantes do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) de cima do carro de som, não agradou todos os manifestantes.


Um ovo foi arremessado contra

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quarta-feira, 7 de abril de 2010

As universidades de Lula em SP

Texto publicado originalmente na coluna de Augusto Nunes de 21/02/2010, com o título "Não parece. Mas Lula garante que há uma universidade nesta foto" – Walter Dos Santos
“E pasmem para uma coisa que é importante”, gabou-se Lula de novo. “Eu, torneiro mecânico, já sou o presidente da República que mais fez universidades neste país”. Jura que construiu 13. Para chegar a esse número, inclui, por exemplo, o campus de São Bernardo do Campo da Universidade Federal do ABC, inaugurado em 25 de agosto de 2009. A imagem que ilustra este post registra o momento da inauguração. Não parece, mas Lula garante que há uma universidade na fotografia.

No dia da festa, o maior governante desde Tomé de Sousa irrompeu no berço político ao lado da primeira-dama e escoltado pela procissão de ministros. Na discurseira para a plateia reunida num auditório, contou que construíra aquele templo do conhecimento por temer a ciumeira de Marisa Letícia, que exigiu para a cidade natal uma universidade igualzinha à de Garanhuns. Atribuiu o ligeiro atraso das obras ao Tribunal de Contas da União. Avisou que o campus começaria com 500 alunos, chegaria a 15 mil até o fim do governo e logo se tornaria mundialmente conhecido como um viveiro de gênios da engenharia.

Encerrada a discurseira, foi visitar a maravilha — sem plateias por perto. A foto congela o instante histórico. Aplaudido pela companheira primeira-dama, pelo companheiro prefeito Luiz Marinho e pelo companheiro vice-prefeito Frank Aguiar, o Primeiro Companheiro não descerra nenhuma placa. Apenas movimenta uma pá. Como o monumento ao saber só existia no palavrório de palanque, o JK de chanchada inaugurou uma pedra fundamental. E deu por inaugurada outra universidade federal.

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segunda-feira, 5 de abril de 2010

A Pedagogia Pilatus

(Ao amigo Rodrigo Cerqueira)

Vendo a Paixão de Cristo (de Mel Gibson) tive um insight. Percebi que a figura romana de Pontius Pilatus era a chave de leitura ideal para a compreensão da condição de professor no Brasil. O filme mostra o governador romano literalmente "entre a cruz e a espada". Pressionado por uma plebe ávida pelo sacrifício da vítima expiatória, ele vê a irrelevância de todo aquele circo, e pareceu pensar: "Que querem esses hebreus? Todo dia surge um novo exegeta, sempre uma nova leitura de suas escrituras: por que este não outro? Por que supliciar aquele que só tem palavras?" E eis a pressão da cruz. Pressionado estava também nosso colega romano pelo poder do império: um governador deve manter a paz em sua colônia; é preciso conduzi-los para que paguem seus impostos, para que aceitem César (no coração ou somente na boca, desde que aceitem). Havia que se empurrar César güela abaixo dos hebreus, bem rápido, sem barulho: do contrário, a espada de César.

Pilatus foi uma das maiores vítimas de nossa história, senão em intensidade e martírio, ao menos no quesito constrangimento e pressão. Pilatus é um personagem moderno por excelência: carrega, adiantado, contradições típicas do que será o professor na sociedade industrial-capitalista, regada às professias pseudo-literárias da administração de empresas, muito antes de ter sido inventada a máquina a vapor. Hoje ele seria mais um, mas para época, era extemporâneo. Pilatus, hoje, seria mais um professor brasileiro, tendando inutilmente fundir contingências salariais e competência pedagógica. Pilatus e os professores são irremediavelmente prometéicos.

Como professores das redes particular, somos Pilatus: devemos manter a paz em sala de aula para que os alunos aceitem César (o dono, a mantenedora da instituição de ensino e sua logomarca). Ora, o que quer um mantenedor de instituição de ensino? O que todo empresário quer: sossego. Bom empregado é aquele que tendo o contato celular do patrão, em caso de emergência, não disca. (E Pilatus meteu o pobre coitado na cruz, mas não mandou sequer um torpedo gsm para César... são as contradições do business romano). Mas como as instituições de ensino sabem que o pilatus em sala é competente? Ora bolas, como Roma sempre fez: ibope. Bom funcionário não dá ibope, bom pilatus governa sem aparecer, governa como se não governasse, faz a plebe se sentir confortável, traz um aroma de naturalidade. Faz-se invisível para que César apareça.

Assim somos pilatus em sala de aula: se tu soubesses leitor, o frio na espinha que dá quando um aluno não vai com tua cara, não aceita teus métodos de ensino, não toma tuas questões como desafio, mas como ofensa de consumidor lesado, ávido por nota e diploma no final... Rapaz, na hora vem a visão da cruz (da ku klux klan!) ardente em chamas, nas quais se consomem os salários mais límpidos.

E você leitor perguntaria, "Ué? Mas a função do professor não é conduzir e agradar seus alunos com sua sabedoria?" E eu responderia, risonhamente: "Não! Conduzir com sabedoria, agradar para direcionar era função de Pilatus!" A função do professor é propor métodos de reflexão, novas abordagens de compreensão, outros ângulos para o real, abrir a cabeça, fazer pensar, inquirir sobre a raridade de eventos e concepções, trair o senso comum, amplificar sensibilidades, propor caminhos. Isso tudo dói. Traz desconforto, exige estudo, exige que o aluno se prepare para a aula como o professor o faz. Incinera o aconchegante ninho do senso comum que mora abaixo dos pés do aluno, faz com que ele precise criar novos pontos de sustentação e equilíbrio para que possa caminhar em novos terrenos (ou dançar, sob outros ritmos, em terrenos outrora tão conhecidos). Educação sincera gera desconforto, instabilidade, muda a configuração da alma. A última coisa que um governador de colônia desejaria é um upgrade intelectual de seus colonizados.

E por essas e outras, o professor não poderia ser Pilatus. Ele não deve governar, porque governar é transformar o instável em estável e educar é mostrar ao estável que estabilidade não existe (e que o equilíbrio coteja a insanidade). A educação efetiva é multidirecional, é a flecha rumando para o alvo quando o desejo é que a flecha experimente, mas não se fixe, ao alvo. A educação tem método, proposta, mas não pode arrogar para si aonde o aluno vai chegar. Ela "convida", e não "governa". Governo é estupro, educação é dança. Estupro e dança são coisas que se fazem a dois: mas como são diferentes suas práticas!

A sorte de Pilatus é que na Roma antiga não existia telemarketing. Os professores, hoje, somos vistos pelos alunos como Pilatus em microfones de telemarketing: "Boa tarde, gostaria de estar pedindo a leitura de um texto, o Sr. aceita?" "O Sr. pode estar estudando tais textos para a avaliação? Não é muito para o Sr.? O Sr. teria tempo de assistir a aula, participar, contribuir e ainda ler?" "O que o Sr. deseja, uma revisão dos textos para maior comodidade?" "O Sr. quer que eu resuma todos os capítulos dos livros?" "Escevo na lousa o protocolo de atendimento?".

Acho que o professor pode, mesmo, servir. Mas deve servir como o Samurai serve: ele protege com a espada, e, assim, corta, fere, mata uma vida para que outra floresça. Saber é sabor, mas não há saber sem dor. E os alunos querem um mundo fácil, um diploma garantido, um conhecimento digestivo, um upgrade sem demora. Eles chegam à universidade sem leitura, sem tempo para leitura, sem tempo para o estudo, não estão lá para estudar e acreditam, piamente, que o pobre Pilatus aqui pode ensinar algo sem que estudem. Pensam que sou um garçom com microfone de telemarketing (cujo patrão é César da Roma antiga). E se a aula força, se o professor puxa, torce, faz com que rompa seus confortos, ele (o aluno judas) liga para O Serviço Ibope de Atendimento ao Consumidor: qual professor em sua carreira não experimentou da espada de César?

Raros são os que vão a Universidade querendo aprender, mas todos querem se formar. Eu acredito na democracia, mas a educação é uma técnica cuja elegância é aristocrática. Adorno, filósofo alemão, dizia que intelectual não arruma cama. Eu não quero parecer arrogante, mas o aluno que trabalha de segunda à segunda, tendo como único tempo livre o horário de aulas da noite, este aluno não pode fazer faculdade. A que custo se faz a democratização da Universidade? Transformando-a em curso técnico? Estamos democratizando ou vulgarizando a educação? Educação é sexo que se faz com fetiche (prazer e dor): do contrário estamos fadados à indelével brochada intelectual. É possível se praticar educação numa esteira de produção?

Qual a solução? Óbvio: solução de ácido fórmico em solvente estricnina (a 50%). O que podemos fazer? O melhor dentro do possível, ou seja, o que fez Pilatus: fazemos o melhor, mas sem pretensão de grandes vôos; lavamos a mão, metendo na cruz a criatividade, achibatando o gosto pela inelutável transformação a partir de uma educação livre, metemos o sonho na cruz e torcemos para que César não saiba.

...E que o cordeiro de Deus nos perdoe a covardia, amém.

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sexta-feira, 2 de abril de 2010

Com Serra, SP cai no ranking de salários para professores

Já sustentei aqui que a campanha de desmoralização da greve dos professores da rede estadual de SP envolve também um mascaramento das condições da educação pública no Estado. Enquanto acusam-se os grevistas de interesses político-partidários, maquiam-se os dados da gestão José Serra, o que não deixa dúvidas sobre o caráter também político-partidário da empreitada contra as reivindições, ainda que disfarçada sob ares de condenação de meios violentos e loas a grandes pacifistas.

Ontem a Folha de S. Paulo publicou reportagem intitulada "São Paulo cai quatro posições em ranking salarial de docentes", a qual começa assim:

"A rede estadual paulista de ensino caiu quatro posições desde 2007 no ranking nacional de salários iniciais, para professores da educação básica. Ocupa hoje a 14ª colocação entre os 27 Estados. Já dentre os cinco com o maior número de alunos, está em segundo lugar.

O levantamento, feito pela Folha, mostra que a hora-aula paga em São Paulo equivale à metade da de Roraima, unidade com a melhor remuneração.

No sistema paulista, o salário é de R$ 1.834, para uma jornada de 40 horas semanais. Foi considerada a remuneração inicial (que abrange metade da rede estadual de SP) dos docentes com formação superior.

Entre os cinco maiores sistemas de ensino, apenas o Paraná paga mais que São Paulo. Atrás vêm Rio, Bahia e Minas Gerais.

Parte dos docentes paulistas está em greve há quase um mês."

A íntegra aqui.

Quanto ao ranking relativo aos estados mais populosos, vale lembrar da peculiar realidade salarial de São Paulo, inteiramente diferente, por exemplo, daquela da Bahia.

E 2007, lembremos (a reportagem não o mencionou), é o ano de início do atual mandato de governador.

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quarta-feira, 31 de março de 2010

As universidades de Lula em MG


O texto abaixo é trecho da matéria publicada no jornal Estado de Minas de 28/03/2010, onde os interessados poderão lê-la integralmente. Título original: Universidades federais mineiras criam cursos que nem sala têm. – Walter Dos Santos
por Glória Tupinambás, do Estado de Minas



Aula à distância no curso de Engenharia da UFMG e computadores sem  monitor na UFOP - ( Fotos de Marcos Michelin e Renato Weil/EM/D.A Press)
Aula à distância no curso de Engenharia da UFMG 
e computadores sem monitor na UFOP

Estudantes que se aventuram em novos cursos de graduação criados recentemente pelas universidades federais encontram um cenário preocupante em Minas: faltam salas de aula, professores, material de ensino, laboratórios de pesquisa e, principalmente, respeito aos alunos. Nesse território dos “sem-sala” está


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Perguntar não ofende... (2)

Foi somente eu que, ao ler o texto PM embarcou em Osasco no ônibus dos professores; é um P2, conseguiu enxergar um quê de teoria da conspiração no meio da história?  

Quanto tempo e conveniência levaram para descobrir que a paulada no rosto da policial foi uma armação orquestrada pelo governador Serra para desqualificar os grevistas pacíficos do Sindicato dos Professores de SP?  

Por que está virando comum a ânsia esquerdista de repetir mantras como "Não sei de nada!", "Não é assim como a imprensa golpista está relatando!" e "Não é exatamente o que você está vendo nas imagens!"?  

Por que os sindicalistas estão tão preocupados em encontrar uma versão alternativa para o acontecido?  

Foi também fogo amigo orquestrado pelo Serra e Yeda a pancadaria dada por manifestantes contra Mário Covas pelo mesmo sindicato há 10 anos em outra greve de professores?  

Se a PM não tivesse divulgado a nota contra o mito do professor heroi, os sindicalistas buscariam descobrir o autor da paulada ou o tempo de internação da policial?  

Quando a Bebel da grande-família-sindical-petista declarou "vamos quebrar a espinha do governador", ela falou de forma literal ou simbólica, fez uma ameaça ou uma brincadeira?  

Por que é mais fácil culpar o solo inteiro em vez de reconhecer o joio, usando a Navalha de Occam?
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Uma interpretação é uma interpretação é uma interpretação



Ainda a respeito da já tão comentada foto da policial sendo carregada em manifestação da APEOESP, o colega de blog Walter disse em "Com barbas e imagens se desfazem as ideologias":

"Mas esses fatos, imagens, evidências estão em silêncio; eles não falam. Somos nós que damos significado a eles. As interpretações que fazemos resultam de nossas pressuposições pessoais, de nossa visão de mundo, de nosso histórico pessoal."

Em "Perguntar não ofende", Walter dissera:

"Segundo você, a foto em questão não retrata 'covardia e truculência' pelo fato de não sabemos o bastante sobre ela. Você está errado. A única informação que não temos sobre ela, segundo diversos blogues políticos e sites de notícias, é APENAS o nome do policial à paisana. Sabemos o contexto da greve em que foi tirada, o clima de selvageria e bandidagem promovido pelos sindicalistas, o ato agressivo da paulada no rosto e o nome da policial ferida pelos manifestantes. Diante disso, por que a foto não esbanja "covardia e truculência"?"

Vão me chamar de pseudo-filósofo, mas daí deduzo que eu estava errado porque tenho minhas pressuposições pessoais, minha visão de mundo e meu histórico pessoal.

"Quando nasci, veio um anjo safado
Um chato dum querubim
Que decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída minha estrada entortou
Mas vou até o fim"

De toda forma, seguem algumas informações sobre a emblemática imagem, que tantas interpretações e interpretações das interpretações tem gerado.


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terça-feira, 30 de março de 2010

Entenda a greve dos professores em SP (3)

O texto abaixo foi publicado na coluna História em Imagens, de Augusto Nunes, de 29/03/2010, com o título A versão feminina de José Dirceu. – Walter Dos Santos
Na temporada grevista de 2000, o deputado federal José Dirceu, presidente nacional do PT, decidiu que as imunidades parlamentares se estendiam ao Código Penal ─ e fuzilou com o ímpeto que faltou ao guerrilheiro de araque o artigo 286: “Incitar, publicamente, a prática de crime”. Foi o que fez ao afirmar que os adversários tucanos “têm de apanhar nas ruas e nas urnas” (veja o vídeo 1). Dias depois, o governador Mário Covas foi acuado e agredido por professores grevistas acampados na Praça da República, em São Paulo.

Vídeo 1 – Entendendo a greve do Sindicato dos Professores, com José Dirceu!

Em 2010, como comprova o mesmo vídeo, a história começa a se repetir. Em outra manifestação nas imediações do Palácio dos Bandeirantes, Maria Izabel Noronha, presidente do sindicato dos professores estaduais, incitou a platéia a transformar em alvo o governador José Serra. “Nós estamos aqui para quebrar a espinha dorsal desse partido e desse governador”, gritou a companheira Bebel.

O segundo vídeo mostra o que aconteceu a Covas ─ e poderá acontecer a Serra caso os manifestantes tomem ao pé da letra a palavra-de-ordem da dirigente. A lei prescreve a pena de três a seis meses, ou multa, para quem incide no crime de incitação ao crime. Veja as cenas e responda: Dirceu merecia ou não a curta temporada na cadeia? E Bebel? Merece ou não merece?

Vídeo 2 – Covas e os professores

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segunda-feira, 29 de março de 2010

Perguntar não ofende... (resposta)

Fico feliz por um comentário apressado, feito no calor do momento, ter estimulado intervenção tão minunciosa como a do colega do blog, na postagem anterior. Agora sim, ao debate!

"1. O serviço de inteligência dos diversos órgãos governamentais faz uso legítimo de agentes infiltrados para conduzir investigações, levantar informações e antecipar-se a conflitos e ataques. Ou você acha que as famosas operações da Polícia Federal descobrem e prendem corruptos e bandidos por meio de atividades paranormais?"

É verdade, isso é legítimo, sobretudo quando se trata de órgãos estatais (por exemplo PF e Ministério Público, com a devida autorização judicial), e não governamentais. A participação do suposto agente infiltrado, pelo que sei, ainda está em aberto, bem como o julgamento sobre sua legitimidade.

"2. Por quais métodos você acredita que os governos de Cuba, China, Coreia do Norte, Venezuela e ex-Rússia descobrem, prendem, torturam e matam opositores políticos? Devolvo a pergunta, com outros termos: Por que um BANDIDO ARRUACEIRO estava na manifestação, e tão bem fantasiado de grevista? Os Sindicato dos Professores de São Paulo vai incluir na pauta de reivindicações a não abertura de sindicância contra o autor da paulada? Será esse mais um caso de pedido contra a "criminalização dos movimentos sociais"?"

O apoio que eu vinha fazendo aqui no blog à greve dos professores não me parece conduzir diretamente a uma conivência com os serviços secretos de Cuba, China, Coreia do Norte, Venezuela e Rússia (ex-URSS), ou então se poderia aproximar o seu posicionamento, legítimo, aos torturadores dos regimes militares da América do Sul, a Guantánamo, ao apoio à escravidão no séc. XIX, etc., algo que eu não consideraria fazer. E não entendi como a segunda pergunta é a mesma, em outros termos, a não ser que os professores sejam agentes daqueles órgãos de inteligência. Isso me parece inverossímil, muito embora a busca por outras ocupações até parecesse justificável frente aos péssimos salários da classe. Não sei o que o sindicato vai fazer, mas a essa altura já foram abertos inquéritos por parte da polícia, com certeza. Quanto à última pergunta, penso que a criminalização dos movimentos sociais não tem essa acepção tão restrita e literal, mas se aplica também às generalizações que chamam os grevistas de "bandidos arruaceiros". Tomara você não seja do tipo que aderiu a elas.

"3. Você se refere a casos que presenciou, quando pessoas atiçavam os manifestantes a agredir policiais para que estes "se defendessem". Como você soube ou descobriu que elas eram agentes infiltrados? Por que você não revelou a identidade deles aos demais manifestantes, antes ou depois do ocorrido? Se você soube desses casos por terceiros, quem te contou: os agentes infiltrados ou os manifestantes "legítimos" do movimento?"

Essa preciso com honestidade conceder a você. Como se tratou de um comentário apressado, minhas palavras afirmaram uma certeza que eu não tinha. Acredito que isso não deslegitima o meu questionamento, contudo.

"4. Por que é tão difícil admitir ou mesmo imaginar que existem pessoas sem caráter e sem vergonha nos movimentos sociais? Os que participam deles são automaticamente "as pessoas do bem" e os que discordam deles automaticamente os "agentes do mal"?"

Bom, aí você parte de um pressuposto com o qual não concordo. Para mim, ao menos, não é nada difícil. Tampouco considero correto fazer a generalização contrária, reduzindo um movimento com reivindicações legítimas e de interesse de toda sociedade a uma baderna de arruaceiros.

"5. Pela sua lógica, os que provocam atos violentos em movimentos semelhantes são agentes infiltrados. Também o eram os manifestantes que agrediram o falecido governador Mario Covas numa greve passada de professores em São Paulo? Foi esse o caso do "professor" que jogou ovos contra o carro do governador José Serra nessa greve atual? Podemos dizer o mesmo dos grevistas da Usp em 2007 que invadiram, depredaram e roubaram a reitoria da universidade? É do mesmo grupo os manifestantes da mesma universidade que jogaram objetos em 2009 contra policiais militares antes de terem sido reprimidos pela força policial?"

Mais uma vez, o pressuposto é falso. Não disse que "os que provocam atos violentos... etc.". Isso nos remete a um dos artifícios de Como vencer um debate sem ter razão:

"Nº 1. Leve a proposição do seu oponente além dos seus limites naturais; exagere-a. Quanto mais geral a declaração do seu oponente se torna, mais objeções você pode encontrar contra ela. Quanto mais restritas as suas próprias proposições permanecem, mais fáceis elas são de defender."

Pensei que você tinha nos enviado esses e outros ensinamentos de Schopenhauer para condenar sua utilização nos debates, e não para aplicá-los. A ideia aqui não é apenas vencer o oponente, certo?

"6. Voltando à atual greve dos professores, quem atirou a primeira pedra: o agente infiltrado que enfraqueceu a índole pacífica dos sindicalistas OU o sindicalista que mandou a paulada na cara da policial? Finalmente, por que tais sindicalistas e grevistas são manipulados e corrompidos tão facilmente por esses agentes infiltrados? Se eles praticamente são tão pacíficos e revolucionários como os seguidores de Gandhi e Martin Luther King, por que não usam a mesma luta pacífica de não resistência e protesto que os movimentos pela independência da Índia e os direitos civis nos EUA?"

Ao contrário de você, eu não sei se houve agente infiltrados para "enfraquecer a índole pacífica" de ninguém. Há violência nos movimentos sociais. Essa violência necessariamente é a mesma de quem espanca e mata moradores de rua, por exemplo? Não. Vale pensar na violência que acompanhou a Revolução Francesa. Se bem me lembro da bíblia, não foi com gentileza que Jesus expulsou os vendilhões do templo. Fico feliz, de toda forma, de descobrir que compartilhamos a admiração por uma figura como a de Gandhi. Ele, de fato, seguiu um caminho que me parece mais inteligente e correto.

"7. Segundo você, a foto em questão não retrata "covardia e truculência" pelo fato de não sabemos o bastante sobre ela. Você está errado. A única informação que não temos sobre ela, segundo diversos blogues políticos e sites de notícias, é APENAS o nome do policial à paisana. Sabemos o contexto da greve em que foi tirada, o clima de selvageria e bandidagem promovido pelos sindicalistas, o ato agressivo da paulada no rosto e o nome da policial ferida pelos manifestantes. Diante disso, por que a foto não esbanja "covardia e truculência"? Por que a mesma ausência de informações não tornou suspeita a rápida deificação do jovem como um símbolo da solidariedade humana?"

Não sabemos nem o nome nem sua função. É lamentável que a policial tenha se ferido enquanto exercia seu trabalho, que aliás também é pouco reconhecido e muito mal pago. Posso condenar o fato de o governador não negociar, o que em parte levou a situação à condição em que ela está. Difícil julgar policiais individualmente. Contudo, para que houvesse covardia, não seria necessário haver diferença de forças? Alguém desarmado, contra alguém armado? Ou é por uma questão de gênero? Se fosse um policial homem, não seria covardia? Repito, considero lamentável que tenha havido o confronto, e não vitimizo o agressor da policial. Se por truculência entende-se violência, de fato seu ato foi violento, mas a palavra me parece carregar um quê de crueldade que não se aplica a primeiras ou segundas pedras lançadas no calor desse tipo de embate, e sim ao que fazia o DOI-CODI e ao que faz PARTE DA polícia que espanca crianças e adolescentes, executa jovens de periferia sem nenhuma ligação com o crime - como ocorreu na época dos ataques do PCC - e extorque comerciantes.

Quanto à "deificação", ela de fato mostra como é preciso cuidado para que nossas paixões não nos façam perder a lucidez que é possível. Mostra também que fotos e vídeos, numa sociedade como a nossa, podem e devem servir para compor as discussões (e a lingua tampouco é inocente), mas não para pôr fim a elas e se impor a qualquer questionamento. Ainda bem que você abandonou esse método!

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