segunda-feira, 28 de junho de 2010
Ainda a união civil
sábado, 24 de abril de 2010
Da Lama ao Kaos
Impossível não responder aos depoimentos deixados por Ricardo, Rodrigo e Fernanda, no meu texto "A Pedagogia Pilatus".
Rodrigo, fique feliz: também tenho que escrever um texto sobre Historiografia (da Grécia ao Iluminismo) para ensino da História em uma universidade estadual. Também estou sem tempo. Divido minha miséria com a tua, que bom! Não temos tempo e ainda assim escrevemos: é pela margem que se devora o rio. (Estou aguardando um longo texto seu! Se vira!)
Ricardo: teu depoimento é belíssimo. Tua escrita é ótima: que prazer tenho no mundo quando encontro pessoas que elaboram o mundo. A pedagogia é mesmo um campo de batalha, um trabalho de sísifo, uma guerra em que sempre se ganha e sempre se perde: um labirinto de Cnossos sem fio de Ariadne. Tua bravura muito, muito me lisonjeia.
Preciso pontuar questões que deixei um pouco no ar: não se trata de exigir alunos ideais e instituições ideais. "Sejamos realistas, desejemos o impossível", contudo, há que se complementar o clichê com um pouco do Hagakure samurai: "aceitar a vida tal qual ela se apresenta". E, tu sabes bem, não se trata de passividade, mas do anseio sincero de querermos mesmo construir uma educação livre e, por isso, começamos pela consciência efetiva sobre esse imenso panóptico histérico que se tornou o mercado da educação no Brasil. É de dentro que se transforma o real; a teimosia é a mãe de todas as virtudes. Assim, conheço a contingência dos alunos. Também trabalhei, dando aulas como professor eventual na escola pública quando fazia minha graduação em História. Sei que a carga de leitura sempre fica aquém do que desejamos: a dos alunos porque eles têm que trabalhar para se manter e, justiça seja feita, a dos professores também, porque temos que ter três ou quatro empregos para podermos comprar nossos livros, pagar nosso aluguel, etc. Tenho consciência das nossas contingências (de alunos e de professores), o que me assusta é, muitas vezes, a alienação do aluno frente ao seu processo pedagógico. O que me assusta não é uma suposta maldade ou má fé do aluno: o que me deixa transtornado é a suposição, por parte do estudante, de que o processo de aprendizado pode ser indolor, pode ser confortável ou confortante, pode ser tranquilamente saboroso. Eu me pergunto: "O que os ensinos fundamental e médio fizeram com esses meninos e meninas, que eles começaram a acreditar que existe conquista sem sofrimento?" Ou ainda: "De onde eles tiraram a idéia que minhas explicações, minhas aulas, podem substituir um processo de aprendizado, de reflexão e de leitura que só eles próprios podem percorrer?"
Essas perguntas me assustam porque revelam certa idiossincrasia muito perversa de nossa educação: o diretivismo do professor em sala de aula, o mito do Showman-teacher dos cursinhos, a lenda do professor palmatória (bate, mas educa) de nosso passado de senzalas à kubitscheks, ainda teimosamente persiste! Ainda se confunde seriedade com sisudez, ainda se confunde ensino com aprendizagem, ainda se acredita no professor-divindade, como um deus Moloch capaz de dar a vida e distribuir a morte. Acredita-se que cabe ao professor a responsabilidade única, o monopólio pelo aprendizado. Desde o ensino fundamental, professores e professoras reclamam da inabilidade dos alunos para com o estudo, mas eu pergunto: "Quando os professores fizeram da sala de aula um lugar de estudo, de reflexão?" Eu sempre escuto aquele papo furado: "Meu professor de cursinho é que era ótimo.... Ele falava e a gente entendia tudo". Pois é: para nossa sociedade, entender e apender é a mesma coisa. Eu sinto estes problemas quando estou em sala de aula na Universidade: meus alunos têm medo de perguntar! Meus alunos têm medo da dúvida! Meus alunos desconfiam de si mesmos e acreditam que aprender é tentar repetir, liturgicamente, o que eu disse em sala. O que me assusta não é a dificuldade do estudo no modo de produção capitalista (essa eu conheço bem), o que me assusta é o que nossa sociedade fez com a educação que matou toda a capacidade criativa o aluno, toda a sua liberdade (e responsabilidade) para com o saber. Tranformou pessoas em corpos dóceis, futuros intelectuais em pussycats, bruxos em broxas, etc.
Não se trata de defender que o aluno deva aprender sozinho e que o profesor não tenha responsabilidade no processo (isso seria ridículo). O que me assusta é que o Brasil ainda não acordou para um fato, para mim, óbvio: a sala de aula é um lugar de poder, e as dificuldades pedagógicas que encontro devem-se ao fato de o aluno desejar o conhecimento pronto, mastigado, porque desejam um ditador. A aula de cursinho se tornou paradigma de ensino no Brasil: veja que temos apostilas até para ensino fundamental 1! Aula de apostila é autoritária. Professor de cursinho é ditador, por que dita. E todos se acostumaram ao conhecimento como leis a serem ditadas e não conceitos a serem refletidos e compreendidos no/pelo grupo em sala de aula.
É curioso: ou o Brasil não se tocou que educação é o mais pleno exercício político de cidadania (muito antes do "vota Brasil") ou se tocou sim, e este é o comportamento político que o Brasil deseja: a docilização de mentes e de corpos.
Meu trabalho em sala de aula nas Universidades vem sendo de dois tipos: 1. Ensinar, propor, refletir sobre os conteúdos programáticos que apresento. 2. Deseducá-los frente às posturas pedagógicas que tiveram que engolir: devem tomar a aula para si, devem buscar a leitura e o conhecimento, devem fazer perguntas e refletir sobre nossas propostas, devem ouvir seus colegas e pensar com eles. Quanto a esta segunda parte é curioso: eles sempre esperam lousa, devoram cadernos, amedrontam-se de suas perguntas, desrespeitam as dúvidas dos colegas (inclusive porque eles mesmos às têm!)
Fernanda: você prova o contrário de tudo que acabei de falar. Você e muitos de meus alunos mostram que o aluno deve seguir o mestre para traí-lo, para superá-lo, e que o professor é um dos protagonistas do processo pedagógico (e não um ator em seu monólogo). E, veja, não se trata de classificar em "aluno bom ou aluno ruim", não penso por essa (i)lógica. Almejo diagnosticar quanto um modelo de educação castrou intelectualmente meus alunos. O que eu quero fazer com meus estudantes seria denominado pelas correntes tradicionais e tecnicistas de "deseducação" ou ainda "criação de maus alunos". Não pretendo postular a insolência, (isso não combina com o Budô). Muito pelo contrário: almejo cultivar a alegria, a irreverência e a liberdade intelectual.
Quando citei a frase de Adorno: "o intelectual não arruma cama" e isso pareceu aristocrático, vale ressaltar que, ao menos da maneira que eu vejo, não se trata de supor um intelectual tão bem servido de renda a ponto de poder contratar serviçais para os afazeres domésticos... Significa que o intelectual sacrifica a casa, a cama, a pia repleta de louça, e corre para os textos, para a escrita. Penso na educação como um mecanismo aristocrático de reflexão, o que não quer dizer que as pessoas devam ser aristocratas, mas devem sim, posicionar-se frente ao mundo de modo nobre, requintado, sutil e – por que não?– irônico.
Se prego essa marcialidade samurai que o Rica e a Fernanda aqui me denunciam (e prego mesmo!) não podemos nos esquecer: os samurais eram aristocratas.
Eis o desafio da educação: ser democrática e aristocrata, ser acessível sem ser popularesca, ser profunda sem alienar-se das contingências sociais e políticas. Baudelaire, em meados do XIX, já comentava sobre o paradoxo da condição aristocrática do poeta frente à velocidade do mundo burguês: se nossas auréolas chafurdarem na lama, todos poderão ser poetas?
Penso que não. Ser poeta no mundo contemporâneo (e estendo a reflexão à criatividade necessária ao estudioso) é ter a consciência de que as auréolas sempre chafurdam na lama... os tolos correm para surrupiá-las e, distraídos, saem enlameados. É o poeta que as atira à lama, só para se rir da tolice prosaica. Tira mais uma do bolso, coelho da cartola, senta-se num café, e, de um Haikai, contempla a Samsara.
Talvez estejamos no caminho certo. Rimos aristocraticamente de nossas contigências e desafiamos a mediocridade política neste blog. Eu precisava dos textos de vocês para reconhecer o caminho. Grande parte da vida a gente fica procurando o caminho. Um dia, recebidos os golpes certeiros, descobrimos que já o havíamos escolhido: só nos restava, vivendo, compreendermos nossas escolhas.
Domo Arigatô Gosaimashita.
Da Lama ao Kaos
terça-feira, 13 de abril de 2010
Responder não ofende... (2)
Réplica de Walter Dos Santos ao último post de Renato Rezende.
Responder não ofende... (2)
quarta-feira, 31 de março de 2010
Perguntar não ofende... (2)
Quanto tempo e conveniência levaram para descobrir que a paulada no rosto da policial foi uma armação orquestrada pelo governador Serra para desqualificar os grevistas pacíficos do Sindicato dos Professores de SP?
Por que está virando comum a ânsia esquerdista de repetir mantras como "Não sei de nada!", "Não é assim como a imprensa golpista está relatando!" e "Não é exatamente o que você está vendo nas imagens!"?
Por que os sindicalistas estão tão preocupados em encontrar uma versão alternativa para o acontecido?
Foi também fogo amigo orquestrado pelo Serra e Yeda a pancadaria dada por manifestantes contra Mário Covas pelo mesmo sindicato há 10 anos em outra greve de professores?
Se a PM não tivesse divulgado a nota contra o mito do professor heroi, os sindicalistas buscariam descobrir o autor da paulada ou o tempo de internação da policial?
Quando a Bebel da grande-família-sindical-petista declarou "vamos quebrar a espinha do governador", ela falou de forma literal ou simbólica, fez uma ameaça ou uma brincadeira?
Por que é mais fácil culpar o solo inteiro em vez de reconhecer o joio, usando a Navalha de Occam?
Perguntar não ofende... (2)
segunda-feira, 29 de março de 2010
Sem ofensas
Adiante, então, e sem ofensas.
"É essencial à liberdade existir somente em ato, no movimento sempre imperfeito que nos junta aos outros, às coisas do mundo, às nossas tarefas, misturadas aos acasos de nossa situação."
Merleau-Ponty, em Humanismo e Terror
Sem ofensas
Responder não ofende...
Tréplica de Walter Dos Santos ao último post de Felipe Leal.Felipe escreveu nas respostas 2 e 4:
>>>O apoio que eu vinha fazendo aqui no blog à greve dos professores não me parece conduzir diretamente a uma conivência com os serviços secretos de Cuba, China, Coreia do Norte, Venezuela e Rússia (ex-URSS) (...). E não entendi como a segunda pergunta é a mesma, em outros termos, a não ser que os professores sejam agentes daqueles órgãos de inteligência.
>>>Tampouco considero correto fazer a generalização contrária, reduzindo um movimento com reivindicações legítimas e de interesse de toda sociedade a uma baderna de arruaceiros.
eu digo:
>>>Mais uma vez, o pressuposto é falso. Não disse que "os que provocam atos violentos... etc."
>>>Ao contrário de você, eu não sei se houve agente infiltrados para "enfraquecer a índole pacífica" de ninguém.
eu digo:
Concordo que você não tenha dito com todas as letras que TODOS os atos violentos presentes nos movimentos sociais são cometidos por agentes infiltrados. Contudo você disse com todas as letras ter presenciado casos semelhantes em que agentes infiltrados instigaram a violência contra os policiais.
Felipe escreveu na resposta 7:
>>>Difícil julgar policiais individualmente. Contudo, para que houvesse covardia, não seria necessário haver diferença de forças? Alguém desarmado, contra alguém armado?
>>>Se por truculência entende-se violência, de fato seu ato foi violento, mas a palavra me parece carregar um quê de crueldade que não se aplica a primeiras ou segundas pedras lançadas no calor desse tipo de embate, e sim ao que fazia o DOI-CODI e ao que faz PARTE DA polícia que espanca crianças e adolescentes, executa jovens de periferia sem nenhuma ligação com o crime - como ocorreu na época dos ataques do PCC - e extorque comerciantes.
eu digo:
Com ou sem diferença de forças, a violência é o último e o pior recurso a ser utilizado numa negociação de interesses ou resolução de conflito.
Numa sociedade em que vigora o Estado Democrático de Direito, como é o caso do Brasil atual, as forças de repressão policiais usam armas de efeito moral apenas quando a situação passa do controle e não pode mais ser contida. Quando os manifestantes atuam como kamikases e partem para a violência moral e física contra os policiais, eles agem, sim, com truculenta covardia e posam-se de falsos mártires para a opinião pública depois.
Que fique bem claro que não defendo os métodos utilizados pela ditadura militar. Mas aproveitando a sua deixa, igualmente não defendo a resistência armada praticada pela esquerda que hoje está no poder. Muitos, embora NÃO TODOS, torturados nos porões do DOI-CODI planejaram e executaram assassinatos, roubos e sequestros contra civis inocentes durante os anos de chumbo. Uma lista de todos os civis mortos pelos terroristas de esquerda pode ser encontrada na coluna de Reinaldo Azevedo de 12/01/2010.
E a História é muito clara ao apontar a ligação direta entre esquerdistas presos e bandidos comuns nas prisões do regime militar, com os primeiros ensinando aos últimos estratégias e táticas de guerilha urbana. Até a Wikipédia registra que o Comando Vermelho "foi criado em 1979 na prisão Cândido Mendes, na Ilha Grande, Rio de Janeiro, como um conjunto de presos comum e presos políticos de esquerda membros da Falange Vermelha, que lutaram contra a ditadura militar".
Desculpe a franqueza, mas defender uma violência menor (a dos movimentos sociais) com outra maior (a do Doi-Codi e polícia) é, digamos, temerosa.
Agressão é agressão em qualquer contexto: a diferença das armas (pedras ou tiros, socos ou cacetetes) depende apenas do que você tem na mão no momento. Liberdade, diálogo e paz não são ou não devem ser palavras arbitrariamente usadas num discurso e não em outro. Eu levo a sério esses 3 ideais tanto se a situação me convier quanto se ela me for desfavorável, se eu estiver no poder ou no front, com a maioria ao meu lado ou na fileira da minoria.
Fazer o contrário é discurso de ditador.
Responder não ofende...
Perguntar não ofende... (resposta)
"1. O serviço de inteligência dos diversos órgãos governamentais faz uso legítimo de agentes infiltrados para conduzir investigações, levantar informações e antecipar-se a conflitos e ataques. Ou você acha que as famosas operações da Polícia Federal descobrem e prendem corruptos e bandidos por meio de atividades paranormais?"
É verdade, isso é legítimo, sobretudo quando se trata de órgãos estatais (por exemplo PF e Ministério Público, com a devida autorização judicial), e não governamentais. A participação do suposto agente infiltrado, pelo que sei, ainda está em aberto, bem como o julgamento sobre sua legitimidade.
"2. Por quais métodos você acredita que os governos de Cuba, China, Coreia do Norte, Venezuela e ex-Rússia descobrem, prendem, torturam e matam opositores políticos? Devolvo a pergunta, com outros termos: Por que um BANDIDO ARRUACEIRO estava na manifestação, e tão bem fantasiado de grevista? Os Sindicato dos Professores de São Paulo vai incluir na pauta de reivindicações a não abertura de sindicância contra o autor da paulada? Será esse mais um caso de pedido contra a "criminalização dos movimentos sociais"?"
O apoio que eu vinha fazendo aqui no blog à greve dos professores não me parece conduzir diretamente a uma conivência com os serviços secretos de Cuba, China, Coreia do Norte, Venezuela e Rússia (ex-URSS), ou então se poderia aproximar o seu posicionamento, legítimo, aos torturadores dos regimes militares da América do Sul, a Guantánamo, ao apoio à escravidão no séc. XIX, etc., algo que eu não consideraria fazer. E não entendi como a segunda pergunta é a mesma, em outros termos, a não ser que os professores sejam agentes daqueles órgãos de inteligência. Isso me parece inverossímil, muito embora a busca por outras ocupações até parecesse justificável frente aos péssimos salários da classe. Não sei o que o sindicato vai fazer, mas a essa altura já foram abertos inquéritos por parte da polícia, com certeza. Quanto à última pergunta, penso que a criminalização dos movimentos sociais não tem essa acepção tão restrita e literal, mas se aplica também às generalizações que chamam os grevistas de "bandidos arruaceiros". Tomara você não seja do tipo que aderiu a elas.
"3. Você se refere a casos que presenciou, quando pessoas atiçavam os manifestantes a agredir policiais para que estes "se defendessem". Como você soube ou descobriu que elas eram agentes infiltrados? Por que você não revelou a identidade deles aos demais manifestantes, antes ou depois do ocorrido? Se você soube desses casos por terceiros, quem te contou: os agentes infiltrados ou os manifestantes "legítimos" do movimento?"
Essa preciso com honestidade conceder a você. Como se tratou de um comentário apressado, minhas palavras afirmaram uma certeza que eu não tinha. Acredito que isso não deslegitima o meu questionamento, contudo.
"4. Por que é tão difícil admitir ou mesmo imaginar que existem pessoas sem caráter e sem vergonha nos movimentos sociais? Os que participam deles são automaticamente "as pessoas do bem" e os que discordam deles automaticamente os "agentes do mal"?"
Bom, aí você parte de um pressuposto com o qual não concordo. Para mim, ao menos, não é nada difícil. Tampouco considero correto fazer a generalização contrária, reduzindo um movimento com reivindicações legítimas e de interesse de toda sociedade a uma baderna de arruaceiros.
"5. Pela sua lógica, os que provocam atos violentos em movimentos semelhantes são agentes infiltrados. Também o eram os manifestantes que agrediram o falecido governador Mario Covas numa greve passada de professores em São Paulo? Foi esse o caso do "professor" que jogou ovos contra o carro do governador José Serra nessa greve atual? Podemos dizer o mesmo dos grevistas da Usp em 2007 que invadiram, depredaram e roubaram a reitoria da universidade? É do mesmo grupo os manifestantes da mesma universidade que jogaram objetos em 2009 contra policiais militares antes de terem sido reprimidos pela força policial?"
Mais uma vez, o pressuposto é falso. Não disse que "os que provocam atos violentos... etc.". Isso nos remete a um dos artifícios de Como vencer um debate sem ter razão:
"Nº 1. Leve a proposição do seu oponente além dos seus limites naturais; exagere-a. Quanto mais geral a declaração do seu oponente se torna, mais objeções você pode encontrar contra ela. Quanto mais restritas as suas próprias proposições permanecem, mais fáceis elas são de defender."
Pensei que você tinha nos enviado esses e outros ensinamentos de Schopenhauer para condenar sua utilização nos debates, e não para aplicá-los. A ideia aqui não é apenas vencer o oponente, certo?
"6. Voltando à atual greve dos professores, quem atirou a primeira pedra: o agente infiltrado que enfraqueceu a índole pacífica dos sindicalistas OU o sindicalista que mandou a paulada na cara da policial? Finalmente, por que tais sindicalistas e grevistas são manipulados e corrompidos tão facilmente por esses agentes infiltrados? Se eles praticamente são tão pacíficos e revolucionários como os seguidores de Gandhi e Martin Luther King, por que não usam a mesma luta pacífica de não resistência e protesto que os movimentos pela independência da Índia e os direitos civis nos EUA?"
Ao contrário de você, eu não sei se houve agente infiltrados para "enfraquecer a índole pacífica" de ninguém. Há violência nos movimentos sociais. Essa violência necessariamente é a mesma de quem espanca e mata moradores de rua, por exemplo? Não. Vale pensar na violência que acompanhou a Revolução Francesa. Se bem me lembro da bíblia, não foi com gentileza que Jesus expulsou os vendilhões do templo. Fico feliz, de toda forma, de descobrir que compartilhamos a admiração por uma figura como a de Gandhi. Ele, de fato, seguiu um caminho que me parece mais inteligente e correto.
"7. Segundo você, a foto em questão não retrata "covardia e truculência" pelo fato de não sabemos o bastante sobre ela. Você está errado. A única informação que não temos sobre ela, segundo diversos blogues políticos e sites de notícias, é APENAS o nome do policial à paisana. Sabemos o contexto da greve em que foi tirada, o clima de selvageria e bandidagem promovido pelos sindicalistas, o ato agressivo da paulada no rosto e o nome da policial ferida pelos manifestantes. Diante disso, por que a foto não esbanja "covardia e truculência"? Por que a mesma ausência de informações não tornou suspeita a rápida deificação do jovem como um símbolo da solidariedade humana?"
Não sabemos nem o nome nem sua função. É lamentável que a policial tenha se ferido enquanto exercia seu trabalho, que aliás também é pouco reconhecido e muito mal pago. Posso condenar o fato de o governador não negociar, o que em parte levou a situação à condição em que ela está. Difícil julgar policiais individualmente. Contudo, para que houvesse covardia, não seria necessário haver diferença de forças? Alguém desarmado, contra alguém armado? Ou é por uma questão de gênero? Se fosse um policial homem, não seria covardia? Repito, considero lamentável que tenha havido o confronto, e não vitimizo o agressor da policial. Se por truculência entende-se violência, de fato seu ato foi violento, mas a palavra me parece carregar um quê de crueldade que não se aplica a primeiras ou segundas pedras lançadas no calor desse tipo de embate, e sim ao que fazia o DOI-CODI e ao que faz PARTE DA polícia que espanca crianças e adolescentes, executa jovens de periferia sem nenhuma ligação com o crime - como ocorreu na época dos ataques do PCC - e extorque comerciantes.
Quanto à "deificação", ela de fato mostra como é preciso cuidado para que nossas paixões não nos façam perder a lucidez que é possível. Mostra também que fotos e vídeos, numa sociedade como a nossa, podem e devem servir para compor as discussões (e a lingua tampouco é inocente), mas não para pôr fim a elas e se impor a qualquer questionamento. Ainda bem que você abandonou esse método!
Perguntar não ofende... (resposta)
domingo, 28 de março de 2010
Também me calei (2)
Uma imagem da solidariedade? Não, um retrato da covardia e truculência dos grevistas do Sindicato de Professores de São Paulo. O texto abaixo foi extraído da coluna de Reinaldo Azevedo de 27/03/2010. – Walter Dos Santos
Os “homens” de Dilma e Bebel quebram a cara de mulheres!
Também me calei (2)
terça-feira, 23 de março de 2010
A arte de não ter motivações
Talvez seja então o caso de discutirmos: 1) em que medida as motivações eleitorais comprometem a incursão em debates públicos; e 2) se é possível, e como seria possível, que algumas intervenções se deem a salvo dos interesses e paixões que fariam parte dos posicionamentos políticos, já que essa possibilidade é claramente um pressuposto de críticas como aquela que diz ser eleitoreira a greve dos professores.
Sim, pois muitas vezes surge, no bojo das discussões, um súbito interesse reflexivo sobre a própria natureza delas. Aprendemos então que um debate pode ser tomado como campo de batalha, em que cada contendor só almeja sua vitória, ou como a busca honesta do verdadeiro por meio de um exame racional. Oposições como essa obviamente remetem àquelas entre retórica e filosofia, opinião interessada e verdade. Seja no senso comum esclarecido, seja em ambiente acadêmico, difícil é vermos hoje alguém defender, sem ressalvas e torneios discursivos, a verdade, a razão, como separadas da opinião, do interesse.
Isso, contudo, não impede que pretensões de isenção e racionalidade apareçam, também, como instrumento de batalha. E por toda parte veem-se acusações de que o discurso alheio é interessado em poder, em dinheiro, em vaidade. Além disso, enquanto no discurso chama-se à temperança e ao razoável, na prática empregam-se recursos dignos de "A Arte de ter razão", como o de atacar algo diferente daquilo que foi dito pelo "oponente".
Rodrigo sustentou que há, na caracterização dos grevistas como "massa de manobra" e adjacências, traços da defesa de um individualismo radical característico do nosso liberalismo jabuticaba, o qual já foi capaz de, ao mesmo tempo, apresentar-se como liberal e escravista. Como diria Tom Jobim, o Brasil não é para amadores. Nem para filólogos profissionais, aparentemente. Eis que as aparências enganam, e vemos, na etimologia do termo liberal, não só um "relativo a liberdade", mas também "que é de boa família, bem educado, nobre; bem disposto, decente, decoroso; bom; liberal, generoso" (tá lá no Houaiss). A bem da verdade, pela convivência de ideais os mais diversos com a escravidão, não somos tão especiais assim, como mostra a história. Mas me desvio...
Eu me pergunto se essa afirmação de liberdades individuais seletivas - e ser seleto é uma questão de classe - não se irmana justamente com a defesa de uma esfera de discussão desinteressada, da qual estariam obviamente excluídos aqueles inaptos a despir-se dos seus interesses e raciocinar como anjos.
Quem seriam esses incapacitados? Um vídeo de muito sucesso no youtube produzido por alunos da Poli a respeito de grevistas da Usp talvez nos traga indícios. Peço que ouçam a leitura que fazem do "jornaleco" (ou algo assim) do sindicato de servidores, que ocorre mais ou menos a partir de 10:30.
Não, não afirmo que esse é o nível de todos os que questionam, quer a greve dos professores, quer as suas justificativas, nem pretendo criar outro campo de legitimidade discursiva só para pôr à margem aqueles de quem discordo. Mas fica a sugestão do segundo parágrafo, com essas reflexões iniciais, algo irresponsáveis.
A arte de não ter motivações
Da liberdade que me deixam ter
“...Se morre um cachorro atropelado, junta gente; e, se passa um batalhão, nós vamos atrás. O brasileiro tem uma alma de cachorro de batalhão”.
"No momento, a julgar pelas pesquisas, a maioria dos 'cachorros' segue gostosamente o batalhão chefiado pelo general do discurso fácil."
"A devoção de Dilma não se restringe ao presidente Lula. Na semana passada, em São Paulo, a ministra cumpriu, religiosamente, as orientações da ex-prefeita Marta Suplicy (PT)."Após a entrega de troféus no aniversário do Jockey Club consultou Marta Suplicy: 'Acabou a solenidade? Posso ir embora?', perguntou. 'Não', orientou a ex-prefeita petista, 'Estamos esperando o padre' [Marcelo Rossi]. 'Ah, o padre', disse Dilma."
“Quanto mais variadas forem as fontes de recursos que sustentam um jornal, uma revista, um portal de internet ou uma emissora de rádio e televisão, mais livres e independentes serão esses veículos.”
“Em 2003, a Presidência anunciava em 499 veículos; em 2009, foram 2.597 os contemplados – um aumento de 961%. Discriminada por tipo de mídia, essa explosão capilarizada da propaganda oficial irrigou primeiro as rádios (270 em 2003, 2.597 em 2008), depois os jornais (de 179 para 1.273) e a seguir o que é catalogado como ‘outras mídias’, entre elas a internet, com 1.046 beneficiadas em 2008.”
Da liberdade que me deixam ter
sexta-feira, 19 de março de 2010
De oportunismos e vigarices
Em termos de desempenho, os alunos formados na rede estadual de São Paulo sequer terminam o ensino fundamental. É uma prova aplicada pelo próprio governo que afirma isso. O Saresp mostrou que os resultados dos alunos do terceiro ano do ensino médio estão abaixo do esperado para a oitava série do ensino fundamental. Um otimismo esforçadíssimo do secretário Paulo Renato declarou ser de suma importância reconhecer o pequeno avanço que houve, enquanto professores da USP e da Unicamp o qualificaram de “tímido” a “pífio” (aqui os textos da Folha). Omitir informações como essas e enfatizar tanto um crescimento no mínimo tímido poderia ser qualificado como oportunismo eleitoral e vigarice. Mantenhamos, contudo, o nível.
“De todas as mentiras, a mais escandalosa é a que assegura que os professores estão sem reajuste desde 2005. Daquele ano até 2009, a folha de pagamentos da Secretaria de Educação saltou de R$ 7,8 bilhões para R$ 10,4 bilhões.” Lição de rigor lógico. Crescimento da folha significa necessariamente aumento de salário? Fora isso, estou com um material de divulgação dos professores que não afirma a “mais escandalosa das mentiras”. Diz que houve reajuste de 5% em 2008. Resultante, aliás, de uma greve. É de se apurar ainda o quanto do aumento se deveu ao piso salarial implantado nacionalmente, a partir de uma iniciativa de lei de Cristovam Buarque.
Os grevistas dizem que o pedido “delirante” de 34,3% de aumento corresponde às perdas salariais desde 1998. Se houve diminuição de salário real, penso que isso deve ser repetido à exaustão, o que já justificaria o índice. Lembro de quando fiz uma reportagem para o jornal laboratório da Facom/Ufba por volta de 2000 (rapaz, estou velho). Um servidor, com salário congelado há tempos, me contou que os anos FHC representaram para ele uma verdadeira mudança de classe: por exemplo, seus filhos saíram de escolas particulares para públicas, que, infelizmente, tampouco são exemplares na Bahia.
Quanto aos professores, que igualmente viviam tempos de aperto, naquela época o então ministro Paulo Renato também buscava implantar medidas “meritocráticas”. Sem querer por ora entrar no mérito (é, literalmente), o que me parece inaceitável é acréscimos por rendimento se implementarem à custa de direitos básicos, como o reajuste salarial de acordo com a inflação.
Provavelmente a greve tem motivações eleitorais, assim como o texto de Reinaldo Azevedo. Aliás, é lamentável que a educação pareça estar tão longe da pauta dos candidatos, e só por isso já me sentiria solidário aos professores grevistas. Pelo mesmo motivo agradeço ao colega de blog que trouxe a questão.
De oportunismos e vigarices