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quarta-feira, 23 de junho de 2010

Governo do PT é o que mais censura (5)

Publicado no blog do Reinaldo Azevedo em 19/06/2010 com o título GOVERNO LULA CENSURA PORTAL NA INTERNET QUE TRAZIAM DADOS DO PAÍS REAL, NÃO DAQUELE VENDIDO PELA PROPAGANDA". – Walter Dos Santos
O decálogo de problemas que segue abaixo poderia se um roteiro utilizado pelos candidatos de oposição José Serra (PSDB) ou Marina Silva (PV). Mas não é — ou NÃO ERA. Ribamar Oliveira, do jornal Valor Econômico, colheu essas avaliações num portal oficial, do próprio governo. Antes que prossiga, uma síntese:

1 - a política de reforma agrária do governo Lula não alterou a estrutura fundiária do país nem assegurou aos assentamentos assistência técnica, qualificação, infra-estrutura, crédito e educação;
2 - a qualidade dos assentamentos é baixa;
3 - os programas oficiais não elevam a renda dos agricultores, que ficam dependendo do Bolsa Família;
4 - imposições da legislação trabalhista no campo acabam provocando fluxo migratório para as cidades;
5 - a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) ainda não definiu uma política de curto ou médio prazo para a formação de um estoque estratégico e regulador de produtos agrícolas.
6 - em futuro próximo, a produção de biodiesel não será economicamente viável;
7 - a reconstrução de uma indústria nacional de defesa voltada para o mercado interno, prevista na Estratégia Nacional de Defesa, não se justifica;
8 - a educação brasileira avançou muito pouco e apresenta os mesmos índices de 2003 em várias áreas:
9 - é baixa a qualidade da educação em todos os níveis; os que concluem os cursos não têm o domínio dos conteúdos, e as comparações com indicadores internacionais mostram deficiências graves no Brasil;
10 - O analfabetismo funcional, entre jovens e adultos, está em 21% na PNAD de 2008, uma redução pequena com relação à PNAD de 2003, que era de 24,8%. O número absoluto de analfabetos reduziu-se, no mesmo período, de 14,8 para 14,2 milhões, o que aponta a manutenção do problema.

Essas informações todas estavam no “Portal do Planejamento”, criado pela Secretaria de Planejamento e Investimento Estratégico (SPI), tarefa que durou um ano e meio. E QUE SUMIU EM UM DIA. Bastaram uma ordem e um clique. É isto mesmo: o ministro Paulo Bernardo (Planejamento) mandou tirar o site do ar. Eram cerca de 3 mil páginas abordando 52 temas.

Bernardo justificou assim a censura em entrevista à rádio CBN:
“Vários ministros me ligaram para dizer: ‘Olha, estão fazendo críticas às políticas desenvolvidas pelo meu ministério, mas nós não fomos chamados a discutir’. Ficamos numa posição um pouco delicada de explicar que aquilo não era posição fechada do Planejamento; são técnicos fazendo debate.”

Entendo… o ministro convocou uma reunião para segunda-feira com os responsáveis pelo Portal:
“Me parece que um site para discutir políticas de governo deve ter um nível de acesso para quem é gestor, outro para quem é jornalista e outro para o público em geral”.
Deixe-me adivinhar como seria essa gradação e o produto oferecido a cada um:
- ao gestor, a verdade;
- ao jornalista, uma quase verdade;
- ao público, o de sempre…

Vamos compreender
É evidente que nenhum governo gosta de ser criticado pelo… próprio governo. Não me atrevo a dizer que este ou aquele não agiriam assim. Aliás, acho curioso que um portal dessa importância vá ao ar sem o conhecimento do chefe da pasta. A questão aí não é matéria de gosto, não.

O que o portal revela é que existem dois Brasis: aquele real, conhecido pelos técnicos do governo, que veio a público por um breve instante, e o outro, o de propaganda, este de novas auroras permanentemente anunciadas pelo governo, ancorado numa verba bilionária de propaganda.

Como se nota, Paulo Bernardo acha que é preciso trabalhar com “níveis” de acesso, como se aqueles informações não fossem dados sobre políticas públicas, mas matéria de “segurança nacional”. Informações relevantes, pois, para orientar tais políticas passariam a ser privilégio de uma espécie de casta.

Nunca antes na história destepaiz!!!
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sábado, 24 de abril de 2010

Da Lama ao Kaos

Impossível não responder aos depoimentos deixados por Ricardo, Rodrigo e Fernanda, no meu texto "A Pedagogia Pilatus".

Rodrigo, fique feliz: também tenho que escrever um texto sobre Historiografia (da Grécia ao Iluminismo) para ensino da História em uma universidade estadual. Também estou sem tempo. Divido minha miséria com a tua, que bom! Não temos tempo e ainda assim escrevemos: é pela margem que se devora o rio. (Estou aguardando um longo texto seu! Se vira!)

Ricardo: teu depoimento é belíssimo. Tua escrita é ótima: que prazer tenho no mundo quando encontro pessoas que elaboram o mundo. A pedagogia é mesmo um campo de batalha, um trabalho de sísifo, uma guerra em que sempre se ganha e sempre se perde: um labirinto de Cnossos sem fio de Ariadne. Tua bravura muito, muito me lisonjeia.

Preciso pontuar questões que deixei um pouco no ar: não se trata de exigir alunos ideais e instituições ideais. "Sejamos realistas, desejemos o impossível", contudo, há que se complementar o clichê com um pouco do Hagakure samurai: "aceitar a vida tal qual ela se apresenta". E, tu sabes bem, não se trata de passividade, mas do anseio sincero de querermos mesmo construir uma educação livre e, por isso, começamos pela consciência efetiva sobre esse imenso panóptico histérico que se tornou o mercado da educação no Brasil. É de dentro que se transforma o real; a teimosia é a mãe de todas as virtudes. Assim, conheço a contingência dos alunos. Também trabalhei, dando aulas como professor eventual na escola pública quando fazia minha graduação em História. Sei que a carga de leitura sempre fica aquém do que desejamos: a dos alunos porque eles têm que trabalhar para se manter e, justiça seja feita, a dos professores também, porque temos que ter três ou quatro empregos para podermos comprar nossos livros, pagar nosso aluguel, etc. Tenho consciência das nossas contingências (de alunos e de professores), o que me assusta é, muitas vezes, a alienação do aluno frente ao seu processo pedagógico. O que me assusta não é uma suposta maldade ou má fé do aluno: o que me deixa transtornado é a suposição, por parte do estudante, de que o processo de aprendizado pode ser indolor, pode ser confortável ou confortante, pode ser tranquilamente saboroso. Eu me pergunto: "O que os ensinos fundamental e médio fizeram com esses meninos e meninas, que eles começaram a acreditar que existe conquista sem sofrimento?" Ou ainda: "De onde eles tiraram a idéia que minhas explicações, minhas aulas, podem substituir um processo de aprendizado, de reflexão e de leitura que só eles próprios podem percorrer?"

Essas perguntas me assustam porque revelam certa idiossincrasia muito perversa de nossa educação: o diretivismo do professor em sala de aula, o mito do Showman-teacher dos cursinhos, a lenda do professor palmatória (bate, mas educa) de nosso passado de senzalas à kubitscheks, ainda teimosamente persiste! Ainda se confunde seriedade com sisudez, ainda se confunde ensino com aprendizagem, ainda se acredita no professor-divindade, como um deus Moloch capaz de dar a vida e distribuir a morte. Acredita-se que cabe ao professor a responsabilidade única, o monopólio pelo aprendizado. Desde o ensino fundamental, professores e professoras reclamam da inabilidade dos alunos para com o estudo, mas eu pergunto: "Quando os professores fizeram da sala de aula um lugar de estudo, de reflexão?" Eu sempre escuto aquele papo furado: "Meu professor de cursinho é que era ótimo.... Ele falava e a gente entendia tudo". Pois é: para nossa sociedade, entender e apender é a mesma coisa. Eu sinto estes problemas quando estou em sala de aula na Universidade: meus alunos têm medo de perguntar! Meus alunos têm medo da dúvida! Meus alunos desconfiam de si mesmos e acreditam que aprender é tentar repetir, liturgicamente, o que eu disse em sala. O que me assusta não é a dificuldade do estudo no modo de produção capitalista (essa eu conheço bem), o que me assusta é o que nossa sociedade fez com a educação que matou toda a capacidade criativa o aluno, toda a sua liberdade (e responsabilidade) para com o saber. Tranformou pessoas em corpos dóceis, futuros intelectuais em pussycats, bruxos em broxas, etc.

Não se trata de defender que o aluno deva aprender sozinho e que o profesor não tenha responsabilidade no processo (isso seria ridículo). O que me assusta é que o Brasil ainda não acordou para um fato, para mim, óbvio: a sala de aula é um lugar de poder, e as dificuldades pedagógicas que encontro devem-se ao fato de o aluno desejar o conhecimento pronto, mastigado, porque desejam um ditador. A aula de cursinho se tornou paradigma de ensino no Brasil: veja que temos apostilas até para ensino fundamental 1! Aula de apostila é autoritária. Professor de cursinho é ditador, por que dita. E todos se acostumaram ao conhecimento como leis a serem ditadas e não conceitos a serem refletidos e compreendidos no/pelo grupo em sala de aula.

É curioso: ou o Brasil não se tocou que educação é o mais pleno exercício político de cidadania (muito antes do "vota Brasil") ou se tocou sim, e este é o comportamento político que o Brasil deseja: a docilização de mentes e de corpos.

Meu trabalho em sala de aula nas Universidades vem sendo de dois tipos: 1. Ensinar, propor, refletir sobre os conteúdos programáticos que apresento. 2. Deseducá-los frente às posturas pedagógicas que tiveram que engolir: devem tomar a aula para si, devem buscar a leitura e o conhecimento, devem fazer perguntas e refletir sobre nossas propostas, devem ouvir seus colegas e pensar com eles. Quanto a esta segunda parte é curioso: eles sempre esperam lousa, devoram cadernos, amedrontam-se de suas perguntas, desrespeitam as dúvidas dos colegas (inclusive porque eles mesmos às têm!)

Fernanda: você prova o contrário de tudo que acabei de falar. Você e muitos de meus alunos mostram que o aluno deve seguir o mestre para traí-lo, para superá-lo, e que o professor é um dos protagonistas do processo pedagógico (e não um ator em seu monólogo). E, veja, não se trata de classificar em "aluno bom ou aluno ruim", não penso por essa (i)lógica. Almejo diagnosticar quanto um modelo de educação castrou intelectualmente meus alunos. O que eu quero fazer com meus estudantes seria denominado pelas correntes tradicionais e tecnicistas de "deseducação" ou ainda "criação de maus alunos". Não pretendo postular a insolência, (isso não combina com o Budô). Muito pelo contrário: almejo cultivar a alegria, a irreverência e a liberdade intelectual.

Quando citei a frase de Adorno: "o intelectual não arruma cama" e isso pareceu aristocrático, vale ressaltar que, ao menos da maneira que eu vejo, não se trata de supor um intelectual tão bem servido de renda a ponto de poder contratar serviçais para os afazeres domésticos... Significa que o intelectual sacrifica a casa, a cama, a pia repleta de louça, e corre para os textos, para a escrita. Penso na educação como um mecanismo aristocrático de reflexão, o que não quer dizer que as pessoas devam ser aristocratas, mas devem sim, posicionar-se frente ao mundo de modo nobre, requintado, sutil e – por que não?– irônico.

Se prego essa marcialidade samurai que o Rica e a Fernanda aqui me denunciam (e prego mesmo!) não podemos nos esquecer: os samurais eram aristocratas.

Eis o desafio da educação: ser democrática e aristocrata, ser acessível sem ser popularesca, ser profunda sem alienar-se das contingências sociais e políticas. Baudelaire, em meados do XIX, já comentava sobre o paradoxo da condição aristocrática do poeta frente à velocidade do mundo burguês: se nossas auréolas chafurdarem na lama, todos poderão ser poetas?

Penso que não. Ser poeta no mundo contemporâneo (e estendo a reflexão à criatividade necessária ao estudioso) é ter a consciência de que as auréolas sempre chafurdam na lama... os tolos correm para surrupiá-las e, distraídos, saem enlameados. É o poeta que as atira à lama, só para se rir da tolice prosaica. Tira mais uma do bolso, coelho da cartola, senta-se num café, e, de um Haikai, contempla a Samsara.

Talvez estejamos no caminho certo. Rimos aristocraticamente de nossas contigências e desafiamos a mediocridade política neste blog. Eu precisava dos textos de vocês para reconhecer o caminho. Grande parte da vida a gente fica procurando o caminho. Um dia, recebidos os golpes certeiros, descobrimos que já o havíamos escolhido: só nos restava, vivendo, compreendermos nossas escolhas.

Domo Arigatô Gosaimashita.


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domingo, 18 de abril de 2010

Entrevista de Hobsbawm

Muito interessante a entrevista de Hobsbawm à New Left Review reproduzida pela Folha. Destaco como exemplo o trecho final:

"Pergunta - Se o sr. tivesse que escolher tópicos ou campos ainda inexplorados e que representam desafios importantes para historiadores futuros, quais seriam?

Hobsbawm - O grande problema é um problema muito geral. Segundo padrões paleontológicos, a espécie humana transformou sua existência com velocidade espantosa, mas o ritmo das transformações tem variado tremendamente. Isso claramente indica um controle crescente sobre a natureza, mas não devemos imaginar que sabemos para onde isso nos está conduzindo."



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sábado, 17 de abril de 2010

Campbell: Os candidatos a presidente e o Twitter

Texto publicado originalmente no Blog do Campbell em 16/04/2010. – Walter Dos Santos
A ex-Ministra Dilma Rousseff (PT) aderiu ao Twitter no último sábado e até o início da noite de ontem tinha cerca de 27 mil seguidores. Com a chegada dela, todos os principais pré-candidatos à presidência, além de alguns “nanicos” estão no microblog.

O veterano da turma é José Serra, do PSDB, que também é o político mais seguido no Twitter, com mais de 200 mil “followers”. Entra na maioria das vezes na madrugada, fala sobre vários assuntos e muito pouco sobre política. Ainda que seja criticado por só responder aquilo que o interessa, promove alguma interação, o que não é visto em todos os políticos.


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segunda-feira, 5 de abril de 2010

A Pedagogia Pilatus

(Ao amigo Rodrigo Cerqueira)

Vendo a Paixão de Cristo (de Mel Gibson) tive um insight. Percebi que a figura romana de Pontius Pilatus era a chave de leitura ideal para a compreensão da condição de professor no Brasil. O filme mostra o governador romano literalmente "entre a cruz e a espada". Pressionado por uma plebe ávida pelo sacrifício da vítima expiatória, ele vê a irrelevância de todo aquele circo, e pareceu pensar: "Que querem esses hebreus? Todo dia surge um novo exegeta, sempre uma nova leitura de suas escrituras: por que este não outro? Por que supliciar aquele que só tem palavras?" E eis a pressão da cruz. Pressionado estava também nosso colega romano pelo poder do império: um governador deve manter a paz em sua colônia; é preciso conduzi-los para que paguem seus impostos, para que aceitem César (no coração ou somente na boca, desde que aceitem). Havia que se empurrar César güela abaixo dos hebreus, bem rápido, sem barulho: do contrário, a espada de César.

Pilatus foi uma das maiores vítimas de nossa história, senão em intensidade e martírio, ao menos no quesito constrangimento e pressão. Pilatus é um personagem moderno por excelência: carrega, adiantado, contradições típicas do que será o professor na sociedade industrial-capitalista, regada às professias pseudo-literárias da administração de empresas, muito antes de ter sido inventada a máquina a vapor. Hoje ele seria mais um, mas para época, era extemporâneo. Pilatus, hoje, seria mais um professor brasileiro, tendando inutilmente fundir contingências salariais e competência pedagógica. Pilatus e os professores são irremediavelmente prometéicos.

Como professores das redes particular, somos Pilatus: devemos manter a paz em sala de aula para que os alunos aceitem César (o dono, a mantenedora da instituição de ensino e sua logomarca). Ora, o que quer um mantenedor de instituição de ensino? O que todo empresário quer: sossego. Bom empregado é aquele que tendo o contato celular do patrão, em caso de emergência, não disca. (E Pilatus meteu o pobre coitado na cruz, mas não mandou sequer um torpedo gsm para César... são as contradições do business romano). Mas como as instituições de ensino sabem que o pilatus em sala é competente? Ora bolas, como Roma sempre fez: ibope. Bom funcionário não dá ibope, bom pilatus governa sem aparecer, governa como se não governasse, faz a plebe se sentir confortável, traz um aroma de naturalidade. Faz-se invisível para que César apareça.

Assim somos pilatus em sala de aula: se tu soubesses leitor, o frio na espinha que dá quando um aluno não vai com tua cara, não aceita teus métodos de ensino, não toma tuas questões como desafio, mas como ofensa de consumidor lesado, ávido por nota e diploma no final... Rapaz, na hora vem a visão da cruz (da ku klux klan!) ardente em chamas, nas quais se consomem os salários mais límpidos.

E você leitor perguntaria, "Ué? Mas a função do professor não é conduzir e agradar seus alunos com sua sabedoria?" E eu responderia, risonhamente: "Não! Conduzir com sabedoria, agradar para direcionar era função de Pilatus!" A função do professor é propor métodos de reflexão, novas abordagens de compreensão, outros ângulos para o real, abrir a cabeça, fazer pensar, inquirir sobre a raridade de eventos e concepções, trair o senso comum, amplificar sensibilidades, propor caminhos. Isso tudo dói. Traz desconforto, exige estudo, exige que o aluno se prepare para a aula como o professor o faz. Incinera o aconchegante ninho do senso comum que mora abaixo dos pés do aluno, faz com que ele precise criar novos pontos de sustentação e equilíbrio para que possa caminhar em novos terrenos (ou dançar, sob outros ritmos, em terrenos outrora tão conhecidos). Educação sincera gera desconforto, instabilidade, muda a configuração da alma. A última coisa que um governador de colônia desejaria é um upgrade intelectual de seus colonizados.

E por essas e outras, o professor não poderia ser Pilatus. Ele não deve governar, porque governar é transformar o instável em estável e educar é mostrar ao estável que estabilidade não existe (e que o equilíbrio coteja a insanidade). A educação efetiva é multidirecional, é a flecha rumando para o alvo quando o desejo é que a flecha experimente, mas não se fixe, ao alvo. A educação tem método, proposta, mas não pode arrogar para si aonde o aluno vai chegar. Ela "convida", e não "governa". Governo é estupro, educação é dança. Estupro e dança são coisas que se fazem a dois: mas como são diferentes suas práticas!

A sorte de Pilatus é que na Roma antiga não existia telemarketing. Os professores, hoje, somos vistos pelos alunos como Pilatus em microfones de telemarketing: "Boa tarde, gostaria de estar pedindo a leitura de um texto, o Sr. aceita?" "O Sr. pode estar estudando tais textos para a avaliação? Não é muito para o Sr.? O Sr. teria tempo de assistir a aula, participar, contribuir e ainda ler?" "O que o Sr. deseja, uma revisão dos textos para maior comodidade?" "O Sr. quer que eu resuma todos os capítulos dos livros?" "Escevo na lousa o protocolo de atendimento?".

Acho que o professor pode, mesmo, servir. Mas deve servir como o Samurai serve: ele protege com a espada, e, assim, corta, fere, mata uma vida para que outra floresça. Saber é sabor, mas não há saber sem dor. E os alunos querem um mundo fácil, um diploma garantido, um conhecimento digestivo, um upgrade sem demora. Eles chegam à universidade sem leitura, sem tempo para leitura, sem tempo para o estudo, não estão lá para estudar e acreditam, piamente, que o pobre Pilatus aqui pode ensinar algo sem que estudem. Pensam que sou um garçom com microfone de telemarketing (cujo patrão é César da Roma antiga). E se a aula força, se o professor puxa, torce, faz com que rompa seus confortos, ele (o aluno judas) liga para O Serviço Ibope de Atendimento ao Consumidor: qual professor em sua carreira não experimentou da espada de César?

Raros são os que vão a Universidade querendo aprender, mas todos querem se formar. Eu acredito na democracia, mas a educação é uma técnica cuja elegância é aristocrática. Adorno, filósofo alemão, dizia que intelectual não arruma cama. Eu não quero parecer arrogante, mas o aluno que trabalha de segunda à segunda, tendo como único tempo livre o horário de aulas da noite, este aluno não pode fazer faculdade. A que custo se faz a democratização da Universidade? Transformando-a em curso técnico? Estamos democratizando ou vulgarizando a educação? Educação é sexo que se faz com fetiche (prazer e dor): do contrário estamos fadados à indelével brochada intelectual. É possível se praticar educação numa esteira de produção?

Qual a solução? Óbvio: solução de ácido fórmico em solvente estricnina (a 50%). O que podemos fazer? O melhor dentro do possível, ou seja, o que fez Pilatus: fazemos o melhor, mas sem pretensão de grandes vôos; lavamos a mão, metendo na cruz a criatividade, achibatando o gosto pela inelutável transformação a partir de uma educação livre, metemos o sonho na cruz e torcemos para que César não saiba.

...E que o cordeiro de Deus nos perdoe a covardia, amém.

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quarta-feira, 31 de março de 2010

As universidades de Lula em MG


O texto abaixo é trecho da matéria publicada no jornal Estado de Minas de 28/03/2010, onde os interessados poderão lê-la integralmente. Título original: Universidades federais mineiras criam cursos que nem sala têm. – Walter Dos Santos
por Glória Tupinambás, do Estado de Minas



Aula à distância no curso de Engenharia da UFMG e computadores sem  monitor na UFOP - ( Fotos de Marcos Michelin e Renato Weil/EM/D.A Press)
Aula à distância no curso de Engenharia da UFMG 
e computadores sem monitor na UFOP

Estudantes que se aventuram em novos cursos de graduação criados recentemente pelas universidades federais encontram um cenário preocupante em Minas: faltam salas de aula, professores, material de ensino, laboratórios de pesquisa e, principalmente, respeito aos alunos. Nesse território dos “sem-sala” está


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sexta-feira, 26 de março de 2010

Desafios e Problemas ou "O Código Pop"

Vi o vídeo dos estudantes da Poli, sobre a Greve da USP: lastimável.

Mas... lastimável para ambos os lados: os que apoiam e os que criticam a greve. No caso destes últimos, me parece óbvio: os meninos simplesmente são surdos aos berros de um grupo que luta por suas condições salariais. Posam de "pobres meninos bonzinhos": "queremos estudar e quem faz barulho é vagabundo". E me pergunto: até quando essa crítica simplista? E o pior é que no Brasil (do lado de cá e de lá) é tudo, sempre, crítica simplista. Fica complicado compreender o ser humano quando um texto (cinematográfico ou escrito) parte do pressuposto que existe "inocência" em qualquer postura política. Algo que soa como: "Nós, coitadinhos e estudiosos, fomos atropelados pela plebe ignara, pelo 'estéril turbilhão da rua' e queríamos, beneditinos, lavrar nossos sacrossantos saberes como quem '...no sossego/Trabalha e teima e lima e sofre e sua'" (ao menos estivessem citando, mesmo, o grande Bilac!..rs).

Mas quero pegar o problema na curva. Quero ir para debaixo da pele. Garimpando tramas noturnas...

Por que narrativas (como o filme dos politécnicos) fazem tanto sucesso? Percebam que ele é do mesmo gênero do vídeo (também aqui neste blog) contra os professores grevistas. A premissa básica é: "nosso mundo está em paz... e vem os baderneiros que só querem atrapalhar e fazer política. São ideológicos"

No nosso país, de Lombroso a Reinaldo Azevedo (e olha eu soltando minhas farpinhas...rs), isso sem falar da mentalidade casa-grande, fomos condicionados a tomar movimento social como "caso de polícia", "coisa de vagabundo". Não era chegada a hora de mudarmos a retórica, as estratégias e as formas, se o que queremos é, realmente, comunicar?

Que tu queria? Tu chega com um trio elétrico gritando palavras de ordem, no prédio da Poli em dia de prova (e tu sabes que os caras fazem o gênero "genrinho que a sogra pediu prá Deus").... Que você esperava? Que o espírito santo do barrete frígio os iluminasse? Que eles fossem possuídos pela pomba-gira revolucionária de Robespierre? Não é a esquerda um tanto romântica, ou ingênua, ou inábil demais? (E, aqui, chamo de esquerda todos que se preocupam com o bem estar social).

Na fala de um dos pseudo-jornalistas "fiotão criado com vó" (eu adoro esse termo...rs) ele usou palavra "anacrônico". Sobre isso, penso:

1. historiador que sou, já sinto vontade de dar pitaco.
2. isso me fez feliz, porque não esperava ouvir dele o sagrado termo historiográfico.
3. me deixou preocupado: será que ele sabe o que fazer com a palavra?

E, aikidoista que sou, penso em botar para circular a energia desferida, transformando o combate em debate, o golpe em contragolpe, a torção ideológica em alongamento intelectual:

Não quero transformar as esquerdas em "picolé de chuchu", mas não será mesmo a hora de revermos as estratégias do combate? Nossa sociedade é carente de formação política, de códigos de erudição política. As esquerdas acreditamos mesmo que nossas formas agressivas vão mesmo convencer alguém ou ainda alertar alguém de algo?

Nossa sociedade não é o paraíso, mas a esquerda não teima nas mesmas estratégias usadas e re-usadas da década de 70, quando vivíamos a ditadura militar? Um exemplo, radical, para compreendermos bem: as falas do PCO, do PSTU, não parecem ingênuas e bobas? Sem ofensas meus caros, mas "contra burguês, vote 16", não parece brincadeira? Não parece vinheta do desenho "Pink e Cérebro"?

Quantas vezes participei de passeatas, invasão da prefeitura do campus da USP (Ribeirão Preto), e não via slogans bobos como este. Na época, mesmo totalmente romântico, eu pensava: "Putz... Mas isso queima o filme, não"?

Eu sei que alguns podem falar: "lá vem o Fábio, o esteta". Mas a forma das coisas importa... "as palavras e as coisas"...rs

Anos atrás, vi na TV a Xuxa com uma boina escrito "Chê". Tempo depois, o mesmo Chê apareceu estampado no biquini da deusa Gisele Bündchen. Marx virou pop. O camarada Rodrigo desconfia (e eu também) que Marx não queria ser tão pop assim (ao menos não com essa "forma").

Não os da Poli. Mas existem outros engenheiros que bem o sabem: "O pop não poupa ninguém!"

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quinta-feira, 25 de março de 2010

É a economia, estúpido

Texto muito interessante, do blog Cidadania.com: Pagando bem, que mal tem?

Ele relata, a partir da experiência do autor, que:

1) com a retomada do crescimento econômico, falta mão de obra barata em São Paulo;

2) empresários de tendências não exatamente comunistas tendem a votar em Dilma, para não pôr em risco a continuidade da boa onda.

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sexta-feira, 19 de março de 2010

A brincadeira de Reinaldo Azevedo


Só pode ser brincadeira. Que Reinaldo Azevedo, volta e meia, meta os pés pelas mãos, não é nenhuma novidade: basta dar uma olhada no texto que leal postou mais cedo. Só que antes ele dava um pouquinho de trabalho para seus leitores mais inteligentes, o Hermeneuta que o diga. (Para os curiosos, recomendo os textos arquivados sob o tag "reinações dos reinaldinhos".)

Mas numa das suas dezenas de postagens de hoje, intitulada "NUNCA ANTES NESTEPAIZ SE VIU UM JORNALISMO TÃO ISENTO", Reinaldo Azevedo passou dos limites. Já há algum tempo irritado com o que chama de "'petização' do noticiário" – e, para os desinformados, o alvo é a Folha, o Estadão, etc., porque pra "pistolagem subjornalística" ele sequer dá bola (ambas as citações foram tiradas deste post) –, nosso intelectual desceu do salto de novo. A vítima da vez foi Daniel Roncaglia, que escreveu o seguinte:
"Antes do escândalo do Distrito Federal, que começou em novembro passado, o governador cassado, José Roberto Arruda (sem partido, ex-DEM), era um dos mais cotados para ser o vice de Serra. No entanto, a crise arranhou não só Arruda como o partido" (link da Folha online)
Polido como lhe é de costume, Reinaldo Azevedo desanca a informação com uma assertiva em caixa alta para dizimar qualquer dúvida que restasse no leitor quanto ao seu conteúdo: "NÃO TENHAM RECEIO DE SUSTENTAR: É UMA MENTIRA CRETINA!!!". E completa:

"Isso nunca chegou a ser nem sequer cogitado. Imaginem se Arruda trocaria uma reeleição que então era certa para o Distrito Federal — e hoje nós sabemos como era doce aquele poder — por uma disputa de resultado incerto. Mas não é só por causa da questão lógica, não!"
Pra refrescar a memória curta de Reinaldo Azevedo, segue um vídeo que correu a internet:



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